A nova superpotência

Disputando com EUA, China combina total liberdade na economia com regime autoritário

*Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2017 | 03h12

A China, fortalecida, apresenta-se no cenário global como superpotência e passa a disputar espaço com os EUA. A explicitação dessa nova atitude chinesa chegou durante o 19.º Congresso do Partido Comunista, que contou com mais de 2.300 participantes, em outubro.

Numa perspectiva histórica, esse congresso poderá ser visto como um divisor de águas. Abandonando a postura burocrática e cautelosa que caracterizou a ação da liderança chinesa nas ultimas três décadas, Xi Jinping firmou-se como a liderança mais importante da China desde Mao Tsé-tung e o Partido Comunista reafirmou seu firme controle sobre a política interna. A ação externa de Beijing passa a ser cada vez mais desinibida e a cautela e a harmonia, sua marca registrada por muitos anos, cedem lugar a uma presença cada vez mais afirmativa tanto nas áreas econômica e comercial, quanto na política e diplomática.

Algumas decisões anunciadas ao final do congresso apontam os rumos da China atual: foi ressaltado o começo de uma nova era para o país, com a restauração da sua grandeza no concerto das nações; Xi Jinping firmou-se como comandante supremo e seus principais pensamentos ideológicos foram incluídos na Constituição, como foi feito com Mao; o modelo chinês de governo – chamado de desenvolvimento com independência –, de capitalismo de Estado e de partido único, foi apresentado como um exemplo para outras nações; o Partido Comunista saiu fortalecido com o anúncio de que qualquer ameaça à sua autoridade será enfrentada com todo vigor; o controle político foi reforçado na imprensa, na internet e nas redes sociais; o combate à corrupção continuará e será intensificado.

Essa nova era da grande estratégia chinesa significa que a China volta a ter um lugar de realce no processo decisório global e o país busca afirmar a imagem de soft power global. Como segunda economia mundial, depois dos EUA, e como o maior importador e exportador global, a país asiático vem se colocando como defensor da globalização, do livre-comércio e da sustentabilidade, com o apoio ao Acordo de Paris sobre mudança do clima. Pela primeira vez, a liderança chinesa ousadamente oferece seu modelo econômico e político como um exemplo para os países em desenvolvimento.

Já que superpotência, como fizeram as principais nações ocidentais até aqui, a China passa a promover grandes projetos globais com impacto sobre muitos países em diferentes regiões, como a iniciativa que tenta reviver a Rota da Seda por terra e por mar (Belt and Road Iniciative).

Na política externa, Beijing passou a adotar uma linha bem mais firme na defesa de seus interesses, como a ameaça de forte reação de todos os chineses a qualquer tentativa de secessão, tendo em mente a situação em Hong Kong e em Taiwan, considerada parte integral do território continental. Além disso, manteve a política de construção de bases militares em ilhas artificiais do Mar do Sul da China e a atitude dúbia em relação às sanções, pelo programa nuclear, à Coreia do Norte.

Com a intenção declarada de posicionar a China como potência global, Xi Jinping recebeu o presidente norte-americano, Donald Trump, no início de novembro. O encontro foi marcado por um orquestrado cerimonial de modo a reforçar a mostra de poder pessoal dos dois lados, sem apresentar maior substância nas questões mais importantes. Os crescentes problemas geoestratégicos que confrontam os dois países – não apenas na Coreia do Norte e no Mar do Sul da China, mas também nas tensões econômicas e de protecionismo comercial – podem agravar as questões bilaterais na área econômica. A visita teve desfecho surpreendente, com Trump não acusando a agressiva política comercial chinesa pelo grande desequilíbrio na balança de comércio bilateral, mas a fraqueza e os erros do governo Barack Obama. Não é de todo improvável que tenha começado a ser gestada a criação de um novo G-2, com profundas repercussões sobre o equilíbrio geopolítico global.

Em relação à América Latina, com a gradual retração do governo e das empresas norte-americanas, a China passou a ganhar espaços significativos, para além da simples presença comercial. Com excedente de capital a custo baixo para oferecer, o financiamento de megaprojetos na América Central se multiplica – ponte de 32 quilômetros em Trinidad e Tobago, uma réplica do Canal do Panamá (do qual a China já é o principal usuário) está sendo examinada por empresa chinesa na Nicarágua. Arrasadas por furacões recentes, Martinica recebeu US$ 3,8 milhões e Antígua e Barbuda, US$2,5 milhões de ajuda humanitária.

Na América do Sul, a China passou a ser o primeiro, segundo ou terceiro parceiro comercial de todos os países da região e estendeu generosos financiamentos à Argentina, ao Equador, à Venezuela, à Bolívia e ao Brasil para projetos de infraestrutura e até para a criação de uma base para rastreamento de satélites no sul argentino. Em todos os países sul-americanos, o crescimento das exportações da China foi maior que o do Brasil. O caso do Paraguai é emblemático: apesar de ser o único país a manter relações com Taiwan, e não com a China, as exportações chinesas, com 27% do total importado, ultrapassaram as brasileiras (24%).

Resta saber como evoluirá o sistema chinês, que combina dois sistemas inconciliáveis: liberdade extrema concedida à economia juntamente com um regime autoritário quase policial imposto à sociedade civil e às pessoas.

A concentração de poder com Xi Jinping e a incorporação formal de seus pensamentos indicam que a abertura econômica vai continuar, ao mesmo tempo que o controle político será maior, com a repressão de manifestações contrárias ao regime em todos os meios, incluídos os digitais. A China, diferente do que ocorreu na URSS, vai ampliar a perestroika sem avançar na glasnost.

*Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice)

 

 

 

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