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A nova trégua em Gaza

O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2014 | 02h 05

A primeira guerra de Gaza entre Israel e o movimento Hamas, que controla o esquálido enclave palestino de 1,8 milhão de habitantes, durou 22 dias, de fins de dezembro de 2008 a meados do mês seguinte. Entre civis e militantes, foram mortas no território 1.400 pessoas; do lado israelense, pereceram 13 soldados. Um cessar-fogo unilateral decretado por Israel interrompeu a matança e a destruição - até que tudo recomeçasse em março de 2012, dessa vez apenas por uma semana, com saldo de 26 mortes palestinas. O cessar-fogo informal perdurou por 19 meses, interrompido com inaudita ferocidade em 8 de julho último.

Nas sete semanas seguintes, bombardeios inclementes e uma invasão terrestre mataram 2.145 palestinos - de crianças abrigadas em edificações da ONU a empedernidos comandantes militares do Hamas em seus redutos. Israel perdeu 64 soldados e 6 civis - estes atingidos pelos foguetes da organização radical e sua aliada, a Jihad Islâmica. Na terça-feira, representantes israelenses e palestinos, em negociações indiretas no Cairo, por intermédio do governo egípcio, concordaram com uma trégua permanente. O que é um bálsamo para a devastada população de Gaza e um alívio para a economia de Israel, acertada em cheio no auge da temporada de turismo.

Mas só no papel o cessar-fogo não tem dia para acabar. O impasse continua intocado. Diferentemente do seu rival Fatah, que governa a Cisjordânia ocupada por meio da Autoridade Palestina do veterano presidente Mahmoud Abbas, o Hamas, financiado pelo Irã e o Catar, não reconhece o direito à existência de Israel - como consta explicitamente de sua ata de fundação. Israel, de seu lado, exige o desarmamento da entidade como condição prévia para permitir que a Faixa de Gaza deixe de ser um gueto a céu aberto, cujos eventuais acessos ao longo dos 51 quilômetros da fronteira comum estabelecida em 1950 abre e fecha como uma torneira.

Israel controla também o litoral do enclave, no Mediterrâneo, onde o Hamas em vão reivindica o direito de construir um porto. A área esteve sob ocupação militar israelense de 1967 a 1994, quando Ariel Sharon decidiu que não valia a pena manter tropas ali para proteger uma minoria de colonos judeus. Ordenou a retirada unilateral, na expectativa de que o superpovoado espaço - reconhecido como parte integrante do território palestino nos Acordos de Oslo de 1993, pelos quais o Fatah reconheceu Israel - ficasse sob controle da Autoridade Palestina. Mas, desde 2007, a Faixa é governada, em seu nome, pelo Hamas.

À época do ditador Hosni Mubarak, o Egito ora afrouxava, ora enrijecia o seu controle sobre a passagem de Rafah, que liga o país ao território, conciliando a ganância das autoridades responsáveis pelos robustos pedágios que extraíam dos interessados no comércio com a região, não raro por uma ampla rede de túneis, com os seus cálculos estratégicos. Depois da Primavera Árabe, o Egito só facilitou a vida do Hamas sob o governo da Irmandade Muçulmana de Mohamed Mursi, entre 2012 e 2013, afinal deposto pelos militares. O atual presidente, Abdel Fatah al-Sisi, segue a linha de Mubarak. O retrospecto, em suma, permite prever mais do mesmo.

Defendendo-se das críticas ao cessar-fogo de seus aliados ainda mais à direita, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, prometeu "responder ainda com mais vigor do que antes" a novos ataques com foguetes. Considerando o morticínio que Israel infligiu a Gaza nos últimos 50 dias, é melhor nem imaginar no que isso poderá se traduzir. De seu lado, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, comemorou a trégua como "uma vitória da resistência islâmica". Mas continuam desatendidas suas demandas fundamentais - entre elas, o fim das restrições israelenses ao ir e vir de bens e de pessoas pelas fronteiras de Gaza, a garantia do direito à pesca nas suas águas costeiras e a reconstrução do Aeroporto Yasser Arafat, nas proximidades do Egito.

Essa pauta será tratada em novas conversações, mas o risco maior é a história se repetir.

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