A oposição ganhou a eleição... na Índia

A maior democracia do mundo, com quase 800 milhões de eleitores, acaba de viver uma eleição histórica. Poucos analistas podiam prever que Narendra Modi, candidato do Partido do Povo Indiano, na oposição desde 2004, pudesse obter mais de 30% dos votos e com isso garantir para seu partido a maioria absoluta no Parlamento e vir a ocupar o cargo de primeiro-ministro. No processo eleitoral Modi derrotou duas "dinastias", as do Partido do Congresso e da família Nehru-Gandhi, que dominaram por décadas o cenário político nacional.

*Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2014 | 02h07

Modi, de uma "casta deixada para trás", self-made man, foi um bem-sucedido governador de Gujarate, Estado importante onde deixou sua marca com uma administração eficiente, baseada na meritocracia, atraindo investimentos nos setores petroquímicos e automotriz, criando empregos, melhorando estradas e a infraestrutura em geral. Conduzindo a campanha de forma inovadora e eficiente, Modi foi financiado por interesses privados cansados da ineficiência e das políticas econômicas equivocadas do governo. Personalidade forte, apoiado por um partido que volta a ter crescente força nacional, conseguiu conquistar o respaldo de parte dos mais pobres e da classe média emergente. Depois de uma década de predominância disfuncional do Partido do Congresso, o apelo das novas propostas foi revolucionário.

O Partido do Congresso, que governou a Índia até agora, com amplo domínio da cena política do país, baseou sua campanha de reeleição nos programas sociais que criou e na ameaça de retrocesso ao explorar o medo de que as políticas a favor dos mais pobres, executadas nos últimos anos, fossem suspensas pelo candidato da oposição. Apesar disso, perdeu parte dos eleitores que mais se beneficiaram durante sua década no poder.

Muitos analistas consideram que o resultado da eleição foi determinado pela conjunção de duas grandes mudanças que ocorreram na sociedade indiana: a emergência de uma nova classe média que saiu do campo para as cidades e os primeiros impactos do importante crescimento da participação dos jovens na política. Esses fatores estão transformando a Índia, trazendo novos valores, comportamentos e conflitos, e criando e aumentando as expectativas de maior eficiência de gestão e melhor qualidade de vida, que o governo atual não foi capaz de atender. Com a urbanização, a classe média emergente dificilmente poderia receber com entusiasmo a mensagem de bem-estar social do governo, porque essas medidas acarretaram a perda do dinamismo da economia, com significativa redução do crescimento, e porque a execução desses programas sociais não foi suficiente para trazer mais escolas, hospitais e transporte para os segmentos das classes C e D. A corrupção prejudicou a execução de programas sociais e de infraestrutura, fazendo com que seus benefícios não fossem claramente identificados em muitas regiões do país.

A campanha eleitoral de Modi baseou-se em mensagens claras e diretas: volta do crescimento, baixa inflação, luta contra a burocracia e a corrupção; abertura da economia e menos intervencionismo estatal, com a redução do número de ministérios para apenas 15, e governo com técnicos experientes. "Menos governo e mais governança" foi seu lema.

Em comícios eleitorais, por exemplo, ligou a melhoria de vida dos pobres à limpeza do Ganges, um rio altamente poluído, mas considerado sagrado por milhões de pessoas por motivos religiosos. O Rio Ganges despoluído, na sua pregação, poderá encorajar o turismo, aumentar a renda não somente dos donos de hotéis, mas também dos vendedores de frutas e flores, dos taxistas e de milhares de outros trabalhadores. Num pais desestimulado por baixo crescimento econômico, pouco turismo, rios poluídos, a indústria têxtil em crise e com crescente desemprego, a relação entre os negócios, a religião e o bem-estar social caiu muito bem. Forte mensagem também foi repetida no tocante à urgência de um governo competente que possa gerenciar serviços eficientes, administração honesta e a criação de empregos. Seu programa de governo incluiu ainda o incentivo à mobilidade social e à representação dos "sem-tudo" na distante e isolada Nova Délhi, a capital política do país.

Fator importante na vitória foi também a insistência em dar à Índia uma visão de futuro, perdida pelo projeto de poder do Partido do Congresso. O nacionalismo, refletido nas referências à projeção da Índia como uma grande nação no cenário internacional e respeitada no exterior, da mesma forma teve peso eleitoral.

Na política externa, as relações com o Paquistão e com a China ganharão destaque. Com os EUA, Modi deverá superar a irritação pela proibição de visto por omissão no ataque contra muçulmanos em 2001. Nada indica que as relações com o Brasil e com os Brics sofram qualquer retrocesso. Ao contrário, com a volta ao crescimento da economia o intercâmbio comercial deverá desenvolver-se.

Modi deverá enfrentar o desafio da grande expectativa por ele criada, inclusive da ala mais religiosa radical e quase chauvinista de seu partido. O novo governo deverá concentrar suas atenções prioritariamente nos problemas internos, tanto na área econômica como nas relações entre as diversas comunidades culturais, linguísticas e religiosas, especialmente com os muçulmanos, que compõem o país.

Em seu primeiro discurso, depois de conhecer a extensão de sua vitória, Modi declarou ser sua "responsabilidade trazer todos" com ele "para governar esse país", evitando a divisão do "nós" e "eles". Confiante, prometeu tornar o século 21 o século da Índia.

Ontem, Modi tomou posse. Em julho, o primeiro-ministro deverá vir ao Brasil para a reunião dos Brics em Fortaleza.

Na Índia, o jogo mudou.

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PRESIDENTE DO CONSELHO DE COMÉRCIO EXTERIOR DA FIESP

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