A pegada humana e os riscos para a Terra

População de 7,5 bilhões já supera a capacidade do ecossistema global de sustentá-la

WASHINGTON NOVAES, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2017 | 03h00

A ONU dedicou toda a semana passada a discussões sobre população no mundo e caminhos para o desenvolvimento sustentável, com ênfase no futuro demográfico e sua influência no panorama geral. Um dos destaques foi a tendência ao envelhecimento nos índices gerais da população, com variações locais que influem nos prazos, nos instrumentos de política e nas recomendações sobre a utilização desses dados no planejamento político-econômico – principalmente tendo em conta essa tendência de envelhecimento médio das populações.

Publicação recente do Instituto Humanitas Unisinos afirma que o crescimento econômico e da “pegada antrópica” (6/4) pode levar ao “colapso da economia moderna”, segundo José Diniz Alves, doutor em Demografia na Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence/IBGE). Tudo associado com a evolução demográfica.

Surgido na África, o ser humano iniciou o processo de migração há 90 mil anos, mas até 10 mil anos atrás havia menos de 1 milhão de pessoas na Terra. Esse número permaneceu baixo até o início da revolução agrícola. Com o crescimento da população agrícola e o avanço das cidades, ao lado da disponibilidade de recursos naturais, por volta do ano 8.ooo a.C. chegou-se a 5 milhões; a 170 milhões no ano do nascimento de Cristo; em 1350, a 370 milhões. Na época do descobrimento do Brasil, a população mundial chegara a 450 milhões e por volta do início da Revolução Industrial, a 1 bilhão de pessoas – ou seja, levou uns 200 mil anos para chegar ali.

Para chegar a 3 bilhões foi preciso crescer muito até 1960; também para atingir 4 bilhões em 1974, 5 bilhões em 1987, 6 bilhões em 1999, 7 bilhões em 2011. A próxima marca, dos 8 bilhões, deverá vir em 2023 ou 2024. Gráfico da ONU indica que em 2100 a população global estará, dependendo dos índices de fecundidade mundial, entre 7 bilhões e 17 bilhões de habitantes, média de 11 bilhões. Essa fecundidade mundial, que começou a baixar em 1960 (de 5,02 filhos por mulher entre 1960 e 1965 para 2,53 filhos entre 2005 e 2010), caiu pela metade em meio século. A maior redução foi na década de 1970, para 1,84 filho – o Brasil e a Índia tiveram reduções expressivas.

Na década de 1990 as reduções continuaram expressivas, à taxa de 0,45 filho por mulher. Na primeira década deste século baixaram a 0,09 filho por mulher. E a ONU continua calculando que a fecundidade média seguirá desacelerando, caindo ao longo de todo o século. A população mundial ficaria, nesse caso, em 11 bilhões em 2100; se a reposição ficar o,5 acima do nível de reposição, a população chegará a quase 17 bilhões; se ficar 0,5 abaixo, em 2100 estará com menos de 7 bilhões.

E o futuro? Já temos 7,5 bilhões de habitantes, uma pegada ecológica 64% mais alta que a biocapacidade da Terra. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera está perto de 410 partes por milhão (o nível seguro é de 350 ppm). Aquecimento global e subida do nível dos oceanos (que ameaça diretamente 2 bilhões de pessoas que vivem a pouca distância do mar) agravam as perspectivas para as próximas décadas. Os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, em matéria de saúde, não foram alcançados: segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 225 milhões de mulheres em idade reprodutiva continuam sem acesso a métodos contraceptivos. Já a Secretaria de Assuntos Humanitários e Emergências da ONU alerta que o mundo está sofrendo a maior crise humanitária de todos os tempos. E pede recursos urgentes para o Iêmen, o Sudão do Sul, a Nigéria e a Somália.

As projeções da ONU indicam que a redução média na população continuou e deve continuar, caindo 0,45 filho por mulher. De 2010 a 2015 caiu para 2,5 filhos por mulher no quinquênio. E segundo a Divisão de População desse organismo, as projeções são de que nos próximos anos a redução na fecundidade média da população mundial vai continuar desacelerando, até o final do século 21. Em 50 anos a taxa caiu 2,5 filhos por mulher, mas em 90 anos deve cair apenas 0,5 filho por mulher.

No caso da hipótese média da ONU, o volume total da população mundial ficará em torno de 11 bilhões de habitantes em 2100; se a taxa ficar 0,5 filho acima do nível de reposição, a população chegará a quase 17 milhões de habitantes; se ficar 0,5 filho abaixo, ficará com menos de 7 bilhões de habitantes em 2100. De qualquer forma, um número que supera a capacidade do ecossistema de sustentar essa população. Poderá talvez sobreviver, “mas em condições psiquicamente alienadas”, diz o Stockholm Resilience Centre (5/4).

Sejam quais forem os caminhos no Brasil, em todos os casos se evidenciam numerosas deficiências de políticas em todos os biomas. Talvez as mais preocupantes sejam as do bioma amazônico, onde as taxas de desmatamento voltaram a crescer no ano passado em níveis alarmantes. Não bastasse, há poucos dias o Senado aprovou a Medida Provisória 756, que põe em situação vulnerável mais de 660 mil hectares (ou 6 mil quilômetros quadrados) de unidades de conservação na Floresta Nacional do Jamanxim, já alvo de especulação imobiliária e grilagem; 305 mil hectares (equivalentes a quase duas cidades de São Paulo) são transformados em área de proteção ambiental mais branda, pois permite a regularização de terras. Outra área prejudicada é a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, também no Pará: ali as reservas já ocupadas poderão ser regularizadas.

São apenas uns poucos casos, embora muito relevantes num país que deveria dar prioridade à preservação de seus biomas e de seu futuro. Mas basta olhar para o Cerrado, berço de grande parte das águas brasileiras, para ver que ali já se devastaram mais de 50% do bioma, que chegou a concentrar 5% de todas as espécies do planeta.

São urgentes e precisam ser muito rigorosas novas políticas para o território brasileiro.

* WASHINGTON NOVAES É JORNALISTA/ E-MAIS: WLRNOVAES@UOL.COM.BR

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