A política como gazua

Justiça seja feita, os anais do Parlamento brasileiro dificilmente registrarão a existência em seu ambiente de um profissional mais ousado do que Eduardo Cosentino Cunha, que lidera um bando protegido pela imunidade parlamentar que não tem o menor pudor em avacalhar o instituto da representação popular para enriquecer, usando a política como gazua. Ocasionalmente, o bando sofre um revés, como ocorreu na terça-feira com o adiamento da sessão do Conselho de Ética da Câmara que muito provavelmente rejeitaria o pedido de cassação do mandato do chefe do bando. Mas aparentemente será difícil impedir que a saneadora cassação do mandato de Cunha acabe sepultada no Conselho de Ética, que existe para coibir desvios de conduta e preservar a imagem institucional da Câmara dos Deputados.

O Estado de S. Paulo

09 Junho 2016 | 03h00

Na sessão do Conselho que deveria, depois de mais de meio ano, finalmente votar o pedido de cassação do mandato de Cunha, estava tudo armado para livrar o presidente afastado da Casa de mais essa ameaça. Dos 21 membros titulares – o presidente só vota em caso de empate – 10 integram o bando de Cunha, outros 9 apoiam a cassação do mandato dele e resta um voto indefinido, o da deputada Tia Eron (PRB-BA), que terá o poder de definir o resultado da votação. Se votar com Cunha, este estará salvo. Se votar contra, haverá empate e o presidente da comissão, José Carlos Araújo (PR-BA), dará o voto de Minerva pela aprovação do pedido de cassação. Estabelece o regimento do Conselho que os titulares ausentes numa sessão serão substituídos pelos suplentes de acordo com a ordem de inscrição deles naquela sessão.

Na terça-feira Tia Eron não apareceu no Conselho. Fechou-se na sala da liderança do PRB, de onde só saiu depois do encerramento dos trabalhos. E o primeiro suplente habilitado a votar era o deputado Carlos Marun (PMDB-MS), um dos líderes da tropa de choque de Cunha, que desde as primeiras horas da manhã fizera plantão na porta do Conselho para garantir que encabeçaria a lista dos suplentes inscritos.

O adiamento da sessão para o dia seguinte e, logo em seguida, para a próxima terça-feira foi um recurso adotado pelo presidente Araújo para neutralizar a manobra de Eduardo Cunha. Foi uma decisão tomada sob o pretexto de dar tempo ao relator, deputado Marcos Rogério (DEM-RO), cujo parecer recomenda a cassação, de tomar conhecimento de um relatório em separado apresentado por Cunha, por intermédio do deputado João Carlos Bacelar (PR-BA), em que se propõe, como alternativa à cassação do mandato, uma ridícula pena de suspensão de 90 dias.

Até a próxima terça-feira, portanto, perdurarão as especulações sobre esse imbróglio que em nada dignifica a imagem dos políticos e do Parlamento. Há quem acredite que o parecer em separado do deputado Bacelar foi apresentado como recurso protelatório, porque Cunha temia que Tia Eron votasse pela cassação. Com base na suposição de que Michel Temer teria interesse no afastamento de Cunha, há quem suspeite que ele estaria pressionando o presidente licenciado do partido da deputada baiana, Marcos Pereira, que integra o governo provisório como ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. De outra parte, oposicionistas acusam o Planalto de estar interessado em preservar o mandato de Cunha e por isso teria articulado com o PRB a ausência de Tia Eron na sessão de terça-feira, para permitir que o vigilante Carlos Marun decidisse a votação em favor de seu chefe.

Essas especulações, que correm ao sabor dos interesses de quem as formula, dão uma ideia do nível em que as questões políticas estão sendo tratadas na ressaca de mais de 13 anos de domínio lulopetista, sob a poderosa influência de Cunha, político inescrupuloso que tem contra si praticamente a unanimidade dos brasileiros, pois consegue ser mais impopular do que Dilma Rousseff, de acordo com as pesquisas de opinião. Como já dissemos nesta mesma página, o saneamento da política nacional estará ainda longe de ser alcançado enquanto o nefasto deputado Eduardo Cunha – em má hora guindado à presidência da Câmara – não for expurgado da vida pública.

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