A precária retórica dos 12 x 8 anos

"O que você con-sidera uma pessoa normal?", perguntou um amigo ao neurologista Oliver Sacks, achando que este não levaria a pergunta a sério. Mas Sacks sugeriu que uma pessoa normal talvez fosse aquela capaz de contar sua própria história: suas origens, o que tinha feito na vida, as circunstâncias em que se encontraria hoje, para onde achava que estava indo - ou desejaria ir - e o que estava fazendo para tal. Em O Círculo dos Mentirosos, Jean-Claude Carrière, o autor da pergunta, conta essa história e se pergunta: podemos dizer de uma sociedade o que se diz de um indivíduo?

Pedro S. Malan, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2014 | 02h02

Em outras palavras, que uma sociedade "normal" precisa ser capaz de contar sua própria história, identificar-se, situar-se com naturalidade no curso do tempo histórico seu e do mundo que é sua circunstância? O "normal" não seria uma sociedade dotada de ordenada memória, constantemente ativada e animada pelas exigências do presente, capaz de encontrar em si os elementos que fundassem sua autoestima, sem a qual é impossível encarar o futuro com um mínimo de confiança? Creio que as perguntas de Carrière não são irrelevantes. Afinal, um país digno desse nome precisa ter alguma consciência social de seu passado, algum vislumbre de seus futuros possíveis e, muito importante, identificar os principais desafios de seu fugidio presente por meio do infindável diálogo entre seu passado e seu futuro.

Para descer um pouco à terra: estamos no Brasil de meados de 2014, a dois meses das eleições que definirão os próximos quatro anos - e bem adiante. É fundamental mirar esse futuro sem desconhecer os cada vez mais visíveis problemas do presente e tampouco os processos e decisões que a eles nos levaram. Como já notei mais de uma vez neste espaço, há importantes armadilhas, algumas autoimpostas recentemente, que terão de ser destravadas.

Mas, além de desativar armadilhas, há muito, mas muito ainda em fazer neste país - o que não significa desconhecer o feito por várias administrações, inclusive a atual -, e é esse muito por fazer que deveria estar no centro do debate público. Um olhar à frente, e não um olhar no retrovisor voltado para estradas já trilhadas. Entendo a estratégia eleitoral do lulopetismo, embora lamente que ela não ajude em nada - ao contrário - a busca das convergências possíveis, que poderiam talvez contribuir para reduzir as incertezas do presente.

Escrevi neste espaço em 2006, reescrevi em 2010, quando a mesma estratégia foi seguida, e de novo agora: não acredito que "a cultura política" do País e seus eleitores tivessem ou tenham algo a ganhar - ao contrario - com uma obcecada tentativa de transformar o debate eleitoral de 2014 numa batalha de aguerridos marqueteiros, militantes e blogueiros. E mais, creio que o discurso retórico "dos 12 anos do lulopetismo versus os 8 anos de FHC", tão caro aos estrategistas marqueteiros, não se sustenta em seus próprios termos.

Por que digo isso? Porque o primeiro mandato de Lula foi distinto do segundo e os 4 anos de Dilma Rousseff, distintos daqueles 8. A tentativa de descrever o conjunto dos 12 anos como marcados por grande unidade na condução da política econômica que poderia ser projetada para o futuro pode justificar-se apenas como expediente eleitoral. Esperemos.

Em longa e imperdível entrevista concedida à Folha de S.Paulo em 27/2/2011, a jornalista pergunta ao ministro da Fazenda se o novo governo seria mais parecido com Lula 1 ou Lula 2. O ministro responde algo como: nem Lula 1 nem Lula 2, será um Lula 3. Deixo ao leitor interpretar o que seria o Lula 4 e vou utilizar apenas a categorização da entrevistadora e do ministro.

Lula 1 beneficiou-se e muito, como é ou deveria ser sabido, de uma combinação positiva de três ordens de fatores: uma situação internacional extraordinariamente favorável, uma política macroeconômica não petista seguida por Antônio Palocci e Henrique Meirelles e uma herança não maldita de mudanças estruturais e avanços institucionais alcançados na vigência de administrações anteriores - inclusive de programas na área social que foram mantidos, reagrupados e ampliados. O Lula 1 começou a terminar quando, em 2006, saíram do governo simultaneamente, além do ministro Palocci, o vice-ministro Murilo Portugal, seu secretário do Tesouro, Joaquim Levy, e seu secretário de Política Econômica, Marcos Lisboa, entre outros.

Lula 2 assumiu com nova equipe e nova concepção sobre o crucial papel do Estado e de suas empresas no desenvolvimento do País. O PAC e suas sucessivas e cada vez mais ambiciosas versões foram, em parte, a expressão dessa nova postura. A crise internacional agravada após setembro de 2008 forneceu um grande álibi para a ampliação da política dita "keynesiana" que vinha sendo praticada desde 2007. O que levou aos insustentáveis 7,5% de crescimento em 2010. Só possíveis porque tivemos (efeito China) outro extraordinário surto de melhora nos termos de troca.

Dilma começou 2011 tendo de lidar com as consequências do superaquecimento de 2010. Mas ainda em 2011 surgiu a ideia da "nova matriz macroeconômica", que não deu certo em outro contexto internacional. A história é muito recente, mas suas consequências são cada vez mais visíveis.

O que importa é que o que estará em votação agora são os últimos 4 anos - afinal, é a atual presidente que busca sua reeleição. E mais obviamente, os próximos 4 anos. É uma votação sobre o presente e principalmente sobre o futuro, e não uma votação sobre um passado cada vez mais distante.

É precária a retórica dos 12 x 8. Mesmo porque a história dos últimos 12 anos, como quer que se a interprete, não seria possível sem avanços alcançados nos 8 anos anteriores. Na verdade, não apenas nesses 8, fundamentais como possam ter sido. A História do Brasil, definitivamente, não começou em 2003. Como, aliás, em nenhum país "normal".

* Pedro S. Malan é economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC

E-mail: malan@estadao.com.br

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.