A promessa austera de Tombini

Os preços da comida voltam a pressionar os índices de inflação e será preciso limitar seus efeitos, disse o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, em depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. A política monetária, segundo ele, terá de manter o novo choque de alimentos circunscrito ao curto prazo. É fácil traduzir a mensagem: será necessário elevar os juros para isolar tanto quanto possível o aumento do custo da alimentação e dificultar o repasse aos demais preços. A previsão mais comum no mercado financeiro, nas últimas semanas, era de mais um aumento da taxa básica de juros, de 10,75% para 11% ao ano. Diante do cenário desenhado pelo presidente do BC, talvez seja mais realista apostar em um aperto monetário mais forte do que esse. O cenário inclui também - e este detalhe é muito importante - uma inflação com resistência "ligeiramente acima" da esperada, de acordo com Tombini.

O Estado de S.Paulo

21 Março 2014 | 02h05

O depoimento foi claro, franco e de certa forma surpreendente. Em outras condições, a exposição no Senado poderia ter sido uma repetição, em linguagem mais popular, dos diagnósticos e projeções contidos nos últimos documentos do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pelo controle da inflação. Tombini foi além disso, ao reconhecer um quadro pior que o avaliado anteriormente e ao indicar a tarefa da política monetária.

Só se pode falar de inflação de alimentos, de combustíveis, de aluguéis, de salários ou de transportes por uma licença de linguagem, e o presidente do BC obviamente sabe disso. Preços de bens ou serviços podem aumentar ou diminuir - e isso ocorre com frequência - sem provocar choques de inflação ou deflação. Todo processo inflacionário envolve mudanças de preços relativos, mas nem toda mudança de preços relativos desemboca num processo inflacionário. Isso ocorre só em certas condições, quando indivíduos e empresas podem repassar os preços aumentados e criar um movimento de realimentação.

Dificultar o repasse e impedir esse movimento é a tarefa da política monetária. Circunscrever o choque dos alimentos ao curto prazo significa exatamente isso. O impacto inicial será sentido por todos e registrado nos índices, mas só haverá impulso inflacionário se o ambiente econômico permitir.

Parte importante desse ambiente é a disposição de indivíduos e empresas de aceitar os novos preços como se fossem componentes de uma nova normalidade. A indexação, tanto formal quanto informal, é parte dessa normalidade - de fato, uma perversão. A indexação remanescente na economia brasileira ainda é muito ampla e perigosa e tende a aumentar quando as autoridades mostram tolerância à inflação.

Ao citar a inflação mais resistente do que se esperava, o risco associado ao choque dos preços agrícolas e a urgência de circunscrevê-lo, o presidente do BC parece ter anunciado uma política mais forte que a prevista no mercado. A ata da última reunião do Copom havia mantido aberta a possibilidade de novos aumentos de juros. A linguagem de Tombini reforçou essa possibilidade. Mas ele foi além dos problemas imediatos. Nada condena o País, segundo o presidente do BC, a uma inflação acima da meta.

É animador ouvir essa declaração do responsável principal pela política monetária, mas, nos documentos publicados até agora, as projeções do BC indicam uma inflação acima da meta pelo menos até 2015. Oficialmente, o compromisso do Copom ainda é conduzir a inflação suavemente até 4,5%, sem apertos maiores que os adotados nos últimos anos. Mas a meta é muito mais alta que a escolhida em outros países em desenvolvimento e até em economias sul-americanas mais dinâmicas que a brasileira.

Nada condena o Brasil a uma inflação acima da meta, como disse Tombini, mas também seria bom levar em conta outra verdade: nada justifica uma inflação de 4,5%. Outros países têm crescido muito mais com preços muito mais próximos da estabilidade. Estaria Tombini disposto a eleger um objetivo mais ambicioso, se pudesse fazê-lo sem consultar a presidente e outros ministros?

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