A quarta revolução chega à escola pública

O mergulho na era digital é irreversível e o estudante paulista terá instrumental adequado

José Renato Nalini, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 03h06

A certeza é que o amanhã será diferente. Nem se imagina quanto, mas a ficção científica ficou defasada ante o que a ciência e a tecnologia tornaram possível. E o cenário de um mundo automatizado, tangido pela inteligência artificial, precisa estar na consciência dos responsáveis pela educação.

O educador convencional tem de se sentir desconfortável por oferecer ao alunado um cardápio que, ao ser usufruído, conterá inexistência. Profissões desaparecerão, atividades que as substituirão nem sequer têm nome. O vácuo tem urgência de ser preenchido com saberes múltiplos, habilidades hoje negligenciadas e posturas de ousadia, audácia e coragem nem sempre estimuladas no ensino tradicional.

Pensando nisso é que a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo acelerou a busca de atualização de seus conteúdos. Na última década já ampliara a oferta de recursos tecnológicos a docentes e alunos. Nessa linha se inserem o Currículo Mais, Aventuras do Currículo Mais, o uso de webserie, videoaulas, geekie e tantos outros instrumentos extraídos das tecnologias de comunicação e informação.

As salas do Acessa Escola passaram a ser referência e desde 2008 oferecem computadores e internet à comunidade escolar. Todavia urge atender à demanda por aulas híbridas, que conciliam a tecnologia móvel com o conteúdo curricular. Daí o empenho em alavancar a infraestrutura.

Os detentores da expertise no setor já estão próximos da rede pública. Google e Microsoft põem à disposição contas ilimitadas de e-mail, totalmente gratuitas, para alunos, professores e gestores. Licenças do pacote Office 365 Pro Plus, para Word, Excel, Power Point e outros aplicativos também são ofertados sem ônus para alunos, docentes e servidores. Já se dispõe de armazenamento ilimitado de arquivos na nuvem, sistema one drive e Google drive. É comum o uso de ferramentas de interação a permitir recepção digital das tarefas do alunado, com devolutiva em tempo real. Não se descuidou da capacitação de docentes e gestores, 8,2 mil já passaram pela Escola de Formação e Aperfeiçoamento da Secretaria, a Efap.

A melhor notícia recente é a doação de 91.798 computadores que estavam nas mais de 5 mil escolas, em regime de outsorcing. A mudança da sistemática gera economia de R$ 140 milhões para o povo paulista. O Consórcio Proeducar, integrado pelas empresas Procomp Indústria Eletrônica Ltda. e CTIS Tecnologia S/A, é o responsável por acrescentar ao patrimônio da educação pública paulista o equivalente a R$ 100 milhões. É o custo do equipamento que ora passa a pertencer à rede pública.

A economia propiciada pela alteração do sistema, de outsorcing para uma solução mais contemporânea, permitirá investimento na gradual modernização da rede. Com isso a escola será mais atraente e sedutora. Falará a linguagem digital de uma geração cuja circuitaria neuronal é eminentemente digital, muito diversa da circuitaria analógica das gerações que se tornam superadas se não se reinventarem.

O projeto prevê a implantação de rede Wi-Fi em todas as escolas públicas estaduais. O acesso à rede mundial de computadores será um plus qualitativo para o aprendizado, pois a infância e a juventude brasileiras já utilizam com intensidade cada vez maior os mobiles, sejam celulares, smartphones, tablets, notebooks ou computadores pessoais. Quem tiver curiosidade poderá percorrer as maiores e melhores bibliotecas do mundo, visitar as mais reputadas universidades e ler centenas de milhares de livros que já caíram no domínio público e estão disponíveis para quem queira conhecê-los.

O Projeto Banda Larga nas Escolas (PBLE) é retomado com a instalação da rede wireless, uma parceria entre a Secretaria da Educação e a Telefônica. O link instalado nas escolas se integrará ao sistema Intragov, que já existe e funciona a contento. O benefício da interligação da banda larga com a rede Intragov é que as unidades contarão com os dois links simultaneamente. Nenhuma unidade de ensino ficará desprovida de sinal se um deles cair. Sempre haverá disponível o outro.

A internet será utilizada apenas para incrementar o conteúdo pedagógico e haverá estratégia de motivação do estudante para que, efetivamente, tire o maior proveito desse novo e incrementado aparato. Apurou-se que funciona de maneira mais eficiente do que a única sala de acesso, dotada de computadores de porte, a aquisição de notebooks para uso de sala em sala de aula, conforme as necessidades da disciplina. De início, 400 escolas terão 40 equipamentos de notebook cada uma, a serem adquiridos com a economia criada a partir da doação.

Enquanto isso, os quase 100 mil computadores doados permanecerão nos laboratórios, que já contam com acesso cabeado à internet. Tais espaços serão paulatinamente convertidos em laboratórios de inovação, com estímulo à criatividade do aluno para criar aplicativos e softwares, aprender programação e fazer experimentos em busca de novas tecnologias.

A Secretaria da Educação também está cuidando de fazer a gradual migração do material físico para o digital. Livros, aulas, exercícios, provas, tudo poderá ser transformado em realidade virtual, na linguagem que é a das crianças e dos jovens deste nosso tempo. O mergulho na era digital é irreversível, assim como o desafio posto pela inteligência artificial, pela internet das coisas, pelas novas dimensões que ora se vislumbram e pela obsolescência que obriga o planejador a estar sempre vigilante para não ser surpreendido pela ameaça do descartável.

O estudante paulista merece receber instrumental que o capacite a vencer no mundo em que a incerteza e o inesperado só permitirão subsistência digna a quem estiver adequadamente preparado e não temer contínuas reformulações de rotas durante uma existência que será, sem dúvida, a cada momento mais surpreendente.

*Secretário de educação do Estado de São Paulo

 

 

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