A raiz do voto antieuropeu

A palavra "terremoto" tem sido amplamente usada - e abusada - para descrever o resultado das eleições para o Parlamento Europeu, encerradas no domingo, que deram aos partidos da extrema direita nacionalista uma participação sem precedentes na câmara de 751 membros sediada em Estrasburgo. Mas a intensidade do sismo esteve longe de ser igual nos 28 países que compõem a União Europeia (UE) ou devastadora para o futuro do bloco de 380 milhões de habitantes, como sugere o alarmismo de parte ponderável das interpretações.

O Estado de S.Paulo

28 Maio 2014 | 02h08

É fato que as elites políticas da Grã-Bretanha e da França sofreram um abalo além dos prognósticos mais pessimistas. Nas Ilhas, o até há poucos anos periférico Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) obteve 28% dos votos, deixando para trás conservadores, trabalhistas e liberais-democratas. Pela primeira vez em um século, nenhuma das duas primeiras agremiações saiu vitoriosa de uma eleição em âmbito nacional. Na França, com 25% dos votos, a xenófoba Frente Nacional, de Marine Le Pen, derrotou tanto a direita tradicional representada pela UMP, do ex-premiê Nicolas Sarkozy, como o Partido Socialista, de François Hollande, hoje no poder - que ficou em terceiro lugar, com humilhantes 14%.

Mas é fato também que, na Holanda, o Partido da Liberdade, um dos mais antieuropeus do bloco, capturou apenas 13% dos sufrágios, menos 3,5 pontos do que no pleito de 2009. E na Itália, que compartilhou com a Grécia, Portugal e Espanha o preço mais alto pela crise do euro, o Partido Democrático, de centro-esquerda, do primeiro-ministro Matteo Renzi, com sua plataforma de modernização econômica alinhada com a UE, obteve consagradores 41%, mais do que qualquer outro partido de seu país desde 1958. Por fim, na Alemanha, a força motriz da União - embora tenha elegido um candidato neonazista -, os democratas-cristãos da chanceler Angela Merkel mantiveram a hegemonia, com 36%.

Tampouco se confirmaram as previsões sobre a disparada da abstenção como forma de protesto e de desencanto com as instituições do bloco - a opaca e alienada eurocracia de Bruxelas, no dizer dos críticos. O não comparecimento ficou na mesma faixa de 56% da disputa anterior. Os extremistas - neles incluída a ultraesquerda do partido grego Syrisa - ficaram com cerca de 25% das cadeiras do colegiado que aprova as leis da UE e elege os membros de seu braço executivo, a Comissão Europeia. Diferentemente do "centrão" socialista-liberal-conservador que desde sempre domina o sistema europeu, não há hipótese de os radicais se entenderem a ponto de agir em conjunto.

O líder do Ukip, Nigel Farage, por exemplo, já avisou que não se aliará a partidos racistas ou antissemitas como a Frente Nacional francesa, a Aurora Dourada grega e o Jobbik húngaro. Também os eurocéticos dinamarqueses do Movimento do Povo guardarão distância deles. No entanto, civilizados ou bárbaros, a sua aversão ao europeísmo não deriva apenas da complacência das suas classes dirigentes e da confraria dos mandarins de Bruxelas com os próprios vícios: desde o descaso com as aflições dos europeus comuns, a quem dão as costas, até a sua córnea resistência em reformar para consolidar a iniciativa mais progressista do Ocidente no século 20.

A denúncia dos fracassos da UE não esconde o nacionalismo xenófobo dos seus detratores. Em nome do resgate de suas "identidades nacionais" na Europa sem fronteiras, querem miná-la para se livrar dos imigrantes que buscam oportunidades econômicas e de acesso aos seus benefícios sociais. Eles vêm dos países mais pobres do bloco, a exemplo dos romenos, ou, notadamente, da África - pior ainda se forem muçulmanos. E não se trata da clássica competição por postos de trabalho. O desemprego na zona do euro, estabilizado em 11,8%, não é tão pior que a média de 9,5% entre 1995 e este ano. É "o outro" que o ancestral racismo europeu, avivado pela diversidade, não suporta e quer banir. É o ressurgimento, passados apenas 70 anos do colapso do nazismo, da cultura letal da pureza étnica.

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