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A recessão 'made in Brazil'

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Roberto Macedo

A recessão veio, mas alertou antes, pois há tempos o produto interno bruto (PIB) brasileiro vem fraquejando no seu desempenho, com a economia mostrando sérios problemas e o governo federal contribuindo para agravar vários deles. Em 2014 os dados da recessão mostraram o PIB caindo 0,2% no primeiro trimestre e 0,6% no segundo, em cada caso relativamente ao trimestre anterior. Medido da mesma forma, ele já havia caído 0,6% no terceiro trimestre de 2013, resultado não compensado no trimestre seguinte, quando o aumento foi de 0,5%.

Diz-se que há uma "recessão técnica". Um site que traduz economês (www.Investorwords.com) aborda a expressão explicando que seu parâmetro é uma queda do PIB por dois trimestres consecutivos, ou mais. E acrescenta: "Uma recessão é tipicamente acompanhada por uma queda do mercado de ações, um aumento do desemprego e um declínio do mercado imobiliário".

No Brasil o mercado de ações vinha mal e recentemente o Ibovespa subiu, mas por força de uma especulação quanto ao seu futuro, a maior probabilidade de que a presidente Dilma Rousseff não seja reeleita. O desemprego, medido nas seis maiores regiões metropolitanas do País, até aqui não aumentou, mas em parte porque a participação da população na força de trabalho vem se retraindo. O emprego formal já dá claros sinais de fraqueza. E o mercado imobiliário também está em declínio.

O mesmo site também diz que "não há uma única causa óbvia de uma recessão, embora em geral a culpa recaia na liderança federal, frequentemente o próprio presidente, o presidente do Banco Central ou toda a administração". Definiu bem o caso brasileiro. Há tempos argumento que as taxinhas de variação do nosso PIB têm como maiores culpados o governo federal e a presidente que o comanda. Até aqui, ao se explicar, o governo passava o mico adiante, identificando como principal causa a crise da economia mundial.

Já contestei esse argumento várias vezes, como no último artigo neste espaço. Então mostrei, com base em estudo recente da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da ONU, que, tomados 33 países dessas regiões e as taxas previstas para a variação de seus PIBs em 2014, 26 (!) deles, enfrentando a mesma crise mundial, apresentam taxas maiores que a do Brasil, e várias bem maiores. Acrescente-se que a economia mundial está em fase de recuperação, ainda que lenta, enquanto o Brasil afunda na recessão.

Mesmo com esse mergulho, a presidente Dilma voltou a brandir o mesmo argumento, num exercício ilusionista com números equivocados. Segundo este jornal (30/8), ela disse que "alguns países vizinhos, como o Chile, o Peru e a Colômbia, tiveram uma grande redução do seu crescimento". Ora, para esses países as previsões citadas são de 3%, 4,8% e 5%, respectivamente. Ou seja, sua perspectiva é de crescer muito mais que o Brasil, para o qual as previsões correntes são em geral menores que 1%. Ademais, o Brasil já vinha atrás da maioria dos países latino-americanos quanto às suas taxas de crescimento entre 2011 e 2013, mostrando que há anos o crescimento tem maior sustentação nesses países. A presidente também afirmou que China, EUA e Reino Unido foram os "únicos países" que se saíram bem no segundo trimestre de 2014. Mas o jornal Folha de S.Paulo, do mesmo dia, desmentiu-a, mostrando que pelo menos 27 países tiveram expansão.

Outro argumento presidencial atribui aos feriados da Copa parte da culpa pela recessão. Mas esses feriados ocorreram em junho e julho, e a recessão começou no primeiro trimestre, e o que fizeram foi apenas agravar um quadro crônico de taxinhas do PIB que marca o governo Dilma como um dos períodos de pior desempenho da economia nacional. Tais feriados, decorrentes de uma Copa encomendada pelo governo, podem ter tido algum efeito, mas menor, e passaria despercebido se o Brasil estivesse crescendo bem mais.

Quanto aos malfeitos econômicos do governo, amplio argumentos anteriores. Os erros macroeconômicos e microeconômicos governamentais são tantos, intensos e flagrantes que já os retiram da condição de meros suspeitos de atuarem como a força mais robusta e atuante. Na macroeconomia, o governo diz seguir o tal tripé macroeconômico, com o câmbio flutuante, metas adequadas de inflação e quanto às contas governamentais. Mas esse tripé está todo torto. A perna do câmbio, rebaixada para conter a inflação; as contas governamentais, frouxas no cumprimento de suas minimizadas metas; e sem ajuda da política fiscal a perna dos juros da política de metas de inflação é esticada em prejuízo da economia e também das mesmas contas. Com a perna do câmbio rebaixada agravam-se ainda as contas externas.

Ademais, por si mesmo esse tripé, mesmo quando bem equilibrado, só se presta à estabilização do avião da economia. A força que o impulsiona vem dos motores, com destaque para os investimentos que criam capacidade produtiva adicional, empregos e rendimentos. Mas como estão esses investimentos? Segundo o último comunicado do IBGE, como proporção do PIB eles caíram de 18,8% no segundo trimestre de 2011 para 16,5% no mesmo período de 2014. Países vizinhos que crescem mais têm taxas acima de 20%. E no trimestre passado os investimentos caíram à descomunal taxa de 11,2% (!) relativamente ao mesmo trimestre de 2013.

Mesmo com o avião da economia desestabilizado e o empuxo dos investimentos fragilizado, da cabine de comando o que se ouve é que está tudo bem. Como disse o ministro Mantega: "O que vejo é uma economia saudável, estruturalmente sólida e que se defronta com problemas conjunturais" (Valor, 22/8).

Pensando a recessão no contexto de uma cadeia produtiva global, ela é essencialmente "made in Brazil", que produz seus principais componentes na fábrica governamental. De fora dela vêm apenas acessórios.

Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard) e consultor econômico e de Ensino Superior.

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