A recuperação das vias

Recapeamento de ruas e avenidas anunciado por João Doria é importante e necessário

O Estado de S.Paulo

18 Abril 2017 | 03h02

Trafegar por São Paulo virou exercício perigoso por causa da herança de ruas e avenidas esburacadas, em todas as regiões, deixada pelo governo de Fernando Haddad. Daí a importância das ações anunciadas pelo prefeito João Doria para recuperar o sistema viário, tão mal cuidado nos últimos anos: o programa Asfalto Novo, que vai recapear 400 mil metros quadrados das principais vias da cidade, a partir de maio, ao mesmo tempo que será intensificada a atividade da Operação Tapa-Buraco.

Os recursos virão do Fundo Municipal de Desenvolvimento de Trânsito, formado por dinheiro proveniente de multas de trânsito – que deverá colaborar com R$ 200 milhões –; do governo federal, por meio do Ministério das Cidades; e da ajuda de empresas privadas, na qual o prefeito deposita grande esperança, para essa e outras iniciativas de sua administração. Neste último caso, o que existe de certo até agora é a doação de 1,2 tonelada de asfalto pela empresa Única Asfaltos. Entre outros exemplos dessa colaboração, Doria confia que o recapeamento da Avenida Paulista, que deve ser a vitrina do programa, será bancado pela iniciativa privada.

Além disso – e esse é um ponto de grande importância da recuperação das vias –, o prefeito está negociando uma maior contribuição das concessionárias de serviços, que pela própria natureza de sua atividade são obrigadas a abrir buracos nas ruas para reparos ou ampliação de suas redes, como a Sabesp e a Comgás. Doria quer que elas aumentem a área do recapeamento em torno dos buracos que fazem: para cada metro quadrado aberto elas teriam de refazer o piso de outros 50.

Programas semelhantes ou equivalentes a esse já foram feitos no passado, sem que por isso os reparos tenham melhorado de forma satisfatória e duradoura as condições das vias. O resultado de obras apressadas, improvisadas, muitas delas em caráter de emergência, e com o emprego de material de má qualidade é que elas duram pouco. O desgaste, sobretudo com a ação das chuvas, reabre logo os buracos tapados, como constata a população.

O governo Haddad não fugiu a essa regra. E para piorar, mesmo dentro dela, fez pouco. Seu último programa nessa área foi executado em 2014, forçado pela Copa do Mundo, como mostra reportagem do Estado, quando só algumas das principais vias, entre elas as Marginais do Tietê e do Pinheiros e as Avenidas Paulista e Rebouças, foram recapeadas. Depois disso, apenas seguiu o padrão de obras mal feitas da Operação Tapa-Buraco.

O que faz a iniciativa de Doria ser diferente – supondo-se que ele cumprirá o que promete – é a qualidade do material a ser empregado: “É asfalto de qualidade. Agora não tem mais esse negócio de padrão 1, 2 e 3. Tem um só padrão: o padrão de qualidade”. Ele será o mesmo para as obras tanto do programa Asfalto Novo e da Operação Tapa-Buraco. Esta na verdade faz o trabalho mais importante, rotineiro, permanente, de reparos nas vias. Basta dizer que apenas de fevereiro para cá foram tapados mais de 27 mil buracos, num total de 204 mil m².

O custo da obra executada com material de melhor qualidade é evidentemente mais elevado. De R$ 500 por metro quadrado em vez dos R$ 270 do governo Haddad, segundo a Prefeitura Regional de Santo Amaro. “Um tapa-buraco com excelência”, diz o engenheiro Carlos Cabral, da Coordenadoria de Obras da Regional. Mas em compensação um trabalho mais duradouro e, por isso, no final das contas também mais barato.

Se levada a bom termo, a iniciativa de Doria terá uma dupla utilidade para a cidade. Em primeiro lugar, é claro, para melhorar o estado lastimável em que se encontram as ruas e as avenidas da cidade, que prejudica seriamente tanto o transporte individual como o coletivo. E será também um bom exemplo: o de ressaltar a importância, mesmo em começo de mandato – quando a tentação é se concentrar em grandes e vistosas obras –, de serviços como o de manutenção e reparo de vias públicas, que afetam o dia a dia da população.

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