A responsabilidade pela política

A falta de lideranças políticas é também resultado de um processo social mais amplo, em que se constata um paulatino distanciamento da população em relação à política

O Estado de S.Paulo

08 Maio 2017 | 05h00

A carência de lideranças políticas, que não apenas dificulta a superação da atual crise, mas afeta o bom funcionamento do regime democrático, tem várias causas. Certamente, o mundo político tem responsabilidade por isso. Ao invés de promover o surgimento de novas lideranças, os partidos e seus caciques criam empecilhos para essa fundamental renovação. O problema, no entanto, não está apenas nos partidos. A ausência de lideranças políticas é também resultado de um processo social mais amplo, em que se constata um paulatino distanciamento da população em relação à política. O interesse público fica limitado a ralos debates partidários e as preocupações da sociedade concentram-se em outras áreas.

Exemplo desse fenômeno ocorre na educação. Cada vez mais se nota um esforço das famílias e das empresas para formar bem seus filhos e seus quadros dirigentes. Em muitas cidades brasileiras há escolas altamente qualificadas para a formação de crianças e jovens que nada deixam a desejar em relação às melhores instituições de ensino dos países desenvolvidos. Proliferam, também, escolas de formação de executivos, de onde, com comprovada eficiência, saem líderes empresariais do mais alto gabarito, aptos a enfrentar os grandes desafios dos nossos tempos. São adequadamente preparados para não ter medo das mudanças tecnológicas e sociais e, principalmente, a não ter medo da velocidade dessas mudanças.

Ou seja, a preocupação com a educação leva a que famílias e empresas atuem de forma muito competente e profissional nessa área, o que é extremamente positivo para o País. Esse empenho contrasta, no entanto, com a quase absoluta falta de esforços para a formação de lideranças políticas. Para o mundo da empresa prepara-se espetacularmente bem. Já a política continua tratada como uma tarefa para amadores, sem exigências de uma mínima preparação. Bastariam para o mister da coisa pública o carisma e certa capacidade de comunicação. Ou, como sugere o cenário político nacional, seriam suficientes o apadrinhamento ou a hereditariedade. Nesse caso, o sobrenome correto é um verdadeiro tesouro.

Os desafios de maior complexidade e de maior impacto para a sociedade estão antes na política do que em outras áreas. Seria ingenuidade, portanto, pensar que para a formação de uma liderança política são suficientes boa vontade, bom senso e um pouco de ética. É preciso investir, de forma continuada, tempo e dinheiro.

Não faltam meios para essa empreitada. A formação profissional dos executivos evidencia a abundante oferta de métodos e instrumentos de ensino, capazes de abordar os mais variados temas. O que parece fazer falta às elites nacionais é uma real preocupação com o interesse público, que vá além da torcida por determinada posição político-partidária.

Sintoma dessa falta de interesse pela coisa pública é a ausência de um amplo e produtivo debate sobre o projeto de país que se quer implementar. Perdeu-se a capacidade de olhar os problemas e as deficiências a partir de uma perspectiva de Nação. Cada um parece preocupado – não sem razão, já que também é sua responsabilidade – em levar adiante seus negócios, seu trabalho, sua família. Os problemas surgem e se agravam quando a discussão sobre a condução do País é terceirizada, ficando por conta exclusiva de políticos que, por sua vez, têm uma visão percuciente de seus próprios interesses e escassa preocupação com o interesse nacional.

Ainda que, com frequência crescente, se fale em responsabilidade social e ambiental, perdeu-se a dimensão da responsabilidade pela coletividade. Ou, ao menos, essa responsabilidade já não é vista como parte da política, sendo encarada tão somente em sua relação com projetos e causas não governamentais. 

Devolver ao País a capacidade de gerar e formar lideranças políticas passa, portanto, por ultrapassar a visão da política como coisa de outros, de terceiros. São direitos e são deveres de cada cidadão o envolvimento e a preocupação com a política, que nada mais é do que esse cuidado e essa estima pelo interesse público – por tudo aquilo que afeta não apenas a família ou um restrito círculo social, mas todos.

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