A retomada da indústria

A indústria nacional voltou a ganhar impulso e retomará no terceiro trimestre o nível de produção anterior à crise, segundo o economista Marcelo de Ávila, da Confederação Nacional da Indústria (CNI). As fábricas brasileiras continuarão, portanto, entre as mais dinâmicas do mundo, enquanto as economias desenvolvidas mal começam a sair do atoleiro da recessão. Em março, a produção industrial já havia anulado as perdas causadas pela crise financeira global, mas houve um ligeiro recuo no segundo trimestre. Foi apenas uma acomodação, depois de meses de expansão muito rápida e acompanhada de sensível pressão inflacionária.

, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2010 | 00h00

A retomada ocorre num cenário de preços bem mais estáveis e sem riscos aparentes de nova onda de aumentos nos próximos meses. Diante desses dados, avaliam analistas do mercado financeiro, o Copom provavelmente dará por encerrado o ciclo de elevação dos juros básicos. Essa era a aposta dominante ontem.

Diante dos sinais de vigor da produção e do consumo, o Ministério da Fazenda elevou de 6,5% para 7% a projeção de crescimento para 2010, cerca de 20 dias depois de publicada a previsão anterior.

Em junho, a produção industrial era 2,5% inferior à de setembro de 2008. Na Índia era 14,7% superior à daquele momento. Na China, 24,4% maior. A Rússia era o mais afetado dos Brics, com sua indústria produzindo, no fim do segundo semestre, 32,1% menos que na fase pré-crise. A comparação, feita pela Bloomberg, foi ajustada pela CNI aos padrões de sazonalidade.

A retomada do crescimento, no Brasil, depois da ligeira acomodação no trimestre passado, já havia sido registrada por vários indicadores e agora está confirmada pelos dados de julho do IBGE. Nesse mês, a produção industrial foi 0,4% maior que a do mês anterior e 8,7% superior à de um ano antes. De janeiro a julho o volume produzido ficou 15% acima do registrado nos meses correspondentes de 2009.

Com mais empregos, maior massa de salários e crédito farto, os consumidores continuam demonstrando otimismo. Em julho, a produção industrial foi puxada pela fabricação de bens intermediários (+0,9%) e de consumo (+0,4% em relação ao mês anterior). Depois de um breve arrefecimento, atribuído à suspensão dos incentivos fiscais, o setor de bens duráveis de consumo produziu 0,9% mais que em junho. A produção de veículos aumentou 3,6% de um mês para outro.

O dado destoante foi o do setor de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, com produção 0,2% menor que a de junho. No ano, o volume fabricado ainda foi 28,3% superior ao de janeiro a julho de 2009. Com a retomada do investimento produtivo, a indústria tem conseguido aumentar o ritmo de atividade sem aumentar a pressão sobre a capacidade instalada. De julho para agosto, o uso da capacidade passou de 85,1% para 84,9%, o mesmo de maio, segundo a nova Sondagem da Indústria de Transformação divulgada pela FGV. O nível ainda é alto. A média de junho-agosto, 85,2%, ainda foi superior à do primeiro trimestre, 84%, quando a economia estava muito aquecida, mas inferior à média dos 12 meses anteriores à crise (85,8%).

Esse dado é muito mais que uma curiosidade estatística. O uso da capacidade instalada é acompanhado cuidadosamente pelo Copom. Quando é alto e tende a aumentar, indica pressões inflacionárias, pelo esgotamento da capacidade de produção e de atendimento da demanda.

Num cenário de crescimento industrial com preços aparentemente estáveis, o elevado uso do potencial produtivo da indústria é um dos poucos sinais de alerta. Será provavelmente levado em conta pelos técnicos e diretores do Copom, assim como os dados de criação de emprego e de expansão da massa de rendimentos. Com base no exame desses e de vários outros indicadores, incluídas as condições da economia internacional, estima-se o risco de inflação e formula-se a decisão sobre os juros. O resultado das discussões do Copom deve ser conhecido no começo da noite de hoje.

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