A revanche da Rússia

Consumou-se domingo, como esperado, o revide do governo russo de Vladimir Putin ao golpe parlamentar que, ao cabo de três meses de violentos protestos e 82 mortes, pôs em fuga o seu aliado ucraniano Viktor Yanukovich. Ele se tornou presidente em 2010, numa eleição não contestada. Brutal, corrupto até à medula e cego à aspiração da maioria do seu povo de ver o país integrado à União Europeia (UE), era, ainda assim, legítimo chefe de Estado.

O Estado de S.Paulo

18 Março 2014 | 02h06

Putin deu o troco anteontem na Península da Crimeia, no sudeste do país, onde 58% dos 2 milhões de habitantes são de etnia russa. Menos de duas semanas depois da queda de Yanukovich, o Legislativo local, à revelia do governo de Kiev, nomeou primeiro-ministro o quase desconhecido Sergei Aksionov. A pretexto de defender os coirmãos supostamente ameaçados pela minoria ucraniana, foi ele quem assumiu a responsabilidade formal pela tomada da capital Simferopol por tropas de suporte da frota russa no Mar Negro.

O segundo lance desse jogo combinado com Moscou foi a convocação de um referendo sobre a decisão parlamentar de incorporar a Crimeia à Rússia. A alternativa seria ela continuar na Ucrânia. A terceira via - a independência - não foi cogitada. Declarada de antemão ilegal pela Ucrânia, UE e Estados Unidos - estes últimos advertindo o Kremlin para o "custo" do desafio -, a consulta de anteontem levou cerca de 1,6 milhão de pessoas às urnas improvisadas e milhares de soldados russos fortemente armados às ruas. Nenhuma entidade estrangeira pôde acompanhar a votação e a apuração.

Pelos dados oficiais, a transformação da Crimeia na 84.ª república da Federação Russa foi aprovada com quase 97% dos votos. O resultado de uma consulta fiscalizada não seria tão reminiscente das votações nas ditaduras, mas o desfecho seria similar. Os russos tomaram a Crimeia dos otomanos no século 18 e dela fizeram presente à então República Socialista Soviética da Ucrânia, em 1954. A Ucrânia, por sua vez, berço da etnia russa nos anos 900, só se consolidou como ente nacional no século 20, como parte da URSS. Com o seu colapso, em 1991, tornou-se independente.

Três anos depois, Rússia, EUA e Reino Unido assinaram o Memorando de Budapeste. O acordo deu à Ucrânia, em troca do desmantelamento de seu arsenal nuclear, garantias de não intervenção política e econômica, incluindo a proibição de ameaças de uso da força contra o país, além de garantir suas fronteiras e sua integridade territorial. É no que se basearam os governos ocidentais para considerar ilícito o referendo e advertir a Rússia pela esperada anexação da Crimeia.

Putin retruca sem corar que o memorando virou letra morta com a quebra da legalidade política em Kiev - como se os compromissos do texto dissessem respeito a governos e não ao Estado ucraniano. A decisão do Kremlin de dar apoio irrestrito à consulta instaurou a maior crise entre a Rússia e o Ocidente desde a guerra fria. Nem os conflitos na antiga Iugoslávia, nos anos 1990, em que estiveram em campos opostos, nem a invasão russa da Georgia, em apoio às províncias separatistas da Abkhasia e Ossétia do Sul, em 2008, produziram semelhante retrocesso.

Não está claro se a política de restauração da influência russa na Ucrânia se limitará à revanche de Putin na Crimeia. No mesmo domingo, multidões se manifestaram em cidades do leste de considerável presença russa, como Kharkiv, a segunda maior cidade do país, e Donetsk, exigindo mais autonomia política e proteção contra alegadas perseguições ucranianas. Se Putin de fato está vivendo "em outro mundo", como avalia a chanceler alemã Angela Merkel, esse poderá ser o germe de outra aventura. E que "custos" o Ocidente estará preparado para lhe cobrar, além de pôr na lista negra autoridades e oligarcas russos?

Em 1914, a Europa mergulhou na Grande Guerra, quando as rivalidades das grandes potências fugiram ao controle racional. Cem anos depois, a Rússia de Putin, cada vez mais assediada pelo Ocidente, sonha com uma contraofensiva restauradora da Mãe Pátria. É um campo minado.

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