A revanche republicana

A Lei das Expectativas Frustradas abateu-se implacavelmente sobre o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, nas eleições de meio de mandato, anteontem. O contraste entre o que prometeu na campanha histórica à Casa Branca, em 2008, e o que logrou fazer nos dois anos seguintes traduziu-se para ele e o seu Partido Democrata numa derrota também histórica no pleito para a renovação da Câmara dos Representantes, de 34 das 100 cadeiras do Senado e de 37 governos estaduais.

, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2010 | 00h00

O chamado "ressurgimento republicano" foi mais contundente do que no pleito de 1994, quando a nova direita do partido acuou o então presidente Bill Clinton ao tomar dos democratas o seu domínio de longa data sobre o Capitólio. Precisando agora recuperar na Câmara 218 assentos para conquistar a maioria na Casa, a oposição obteve 239. Dito de outro modo, 60 lugares mudaram de cor: do azul democrata para o vermelho republicano, na peculiar paleta política americana. Isso não acontecia há 62 anos.

No Senado, onde ocorreu o mesmo com 6 vagas, os democratas ainda conseguiram agarrar-se, como um náufrago ao rochedo, ao mínimo de cadeiras numericamente necessárias (51) para deter a maioria - mas a vantagem nominal não impedirá os republicanos de obstruir sistematicamente as votações de projetos de interesse do governo. E o que pretendem os vitoriosos da hora, que capitalizaram o descontentamento do eleitorado com a política econômica de Obama - incapaz de tirar o índice de desemprego da vizinhança dos 10%.

Segundo pesquisas recentes, praticamente 9 em cada 10 americanos decididos a ir às urnas se declararam preocupados com a economia - que o presidente se gaba de ter "estabilizado" - e 4 em 10 disseram que a vida piorou para as suas famílias nos últimos 2 anos. Outros eleitores dos segmentos da população que foram decisivos para o triunfo de Obama, como os negros, os hispânicos, os jovens, os diplomados por universidades e a elite das novas profissões, exprimiram o seu desencanto deixando de votar.

Não que os republicanos tivessem apresentando uma agenda alternativa viável. As suas únicas propostas marteladas sem cessar - reduzir o biliardário déficit público e cortar mais impostos, além de tornar permanente o que já foi cortado - se excluem umas às outras. "Reaver o nosso governo", a palavra de ordem que a oposição tomou emprestada do movimento ultraconservador Tea Party (que conseguiu emplacar 2 senadores e com o qual simpatizam 40% dos votantes efetivos) significa apenas impedir Obama de governar.

"Faremos tudo que pudermos fazer para retardar, deter, matar" os projetos do presidente, prometeu o novo presidente da Câmara, John Boehner. Ainda assim, Obama lhe telefonou na madrugada de ontem para exortá-lo a procurar "pontos em comum" para a próxima legislatura. Ele há de ter pensado que era a coisa certa a fazer, como se a oposição não tivesse dado as costas às suas ofertas para negociar o projeto de reforma do sistema da saúde e o pacote de resgate da economia - afinal aprovados sem um único voto republicano.

Obama facilitou demais as coisas para os seus adversários - ou melhor, inimigos, dado o ódio que a direita tem por ele. O candidato que eletrizou o país com a sua retórica soberba se revelou um presidente cerebral, distante, incapaz de transmitir emoção mesmo ao falar das agruras do americano comum e acomodado sem constrangimento aparente aos podres de Washington que não se cansara de verberar.

Foi como se do fogo da campanha ele não levasse nem uma fagulha para a Casa Branca. Ao lembrar os americanos de algumas verdades - impediu que a recessão herdada do governo Bush se transformasse em outra Grande Depressão, reformou o sistema financeiro e foi o primeiro presidente a aprovar um programa de acesso universal ao sistema de saúde - as suas palavras soavam inconvincentes diante da lembrança do seu mote eleitoral "Sim, podemos". Há pouco, numa entrevista, ele teve que emendar: "Sim, podemos, mas? não será da noite para o dia." Muito menos de agora em diante.

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