A revolução frustrada

Conhecidos os resultados do primeiro dos três ciclos eleitorais para a composição da Assembleia do Povo do Egito, a câmara baixa de 498 cadeiras que formará o Parlamento nacional com a Shura, o conselho consultivo de 176 membros eleitos e 88 biônicos, vem à mente a máxima segundo a qual as revoluções inexoravelmente devoram os seus filhos. No caso egípcio, os revolucionários foram os jovens predominantes nas multidões que se instalaram na Praça Tahrir do Cairo para pedir o fim da ditadura de 30 anos do octogenário Hosni Mubarak.

O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2011 | 03h08

Nos passos dos colegas tunisinos que haviam apeado o autocrata Zine Ben Ali, os ocupantes da praça - universitários, profissionais liberais, empresários de setores modernos, famílias de classe média e trabalhadores desempregados - clamavam não apenas por liberdade, decência e democracia em senso estrito, mas também por oportunidades de importar do Ocidente, com as suas cambiantes tecnologias em rede, novos valores na vida pessoal e na relação com os poderes estabelecidos e, enfim, de participar das decisões dos governantes. Nas ruas de todo o país podiam-se ouvir, com variáveis graus de nitidez, ecos das rebeliões estudantis de maio de 1968.

Passados nove meses, pouco mudou. Mubarak se foi, substituído por uma junta militar de 24 oficiais, sob a chefia do marechal Mohamed Hussein Tantawi, de 76 anos, 25 deles como ministro de Defesa do regime. Por conta própria, fracassadas as tentativas de acordo com os desacreditados partidos políticos, a junta nomeou primeiro-ministro um civil que fez carreira sob Mubarak e nada fez para modernizar a administração pública controlada pelos potentados da vasta e corrupta burocracia. Ao mesmo tempo, como nos tempos de Mubarak, a polícia, os serviços de segurança, as organizações paramilitares e o Judiciário servil continuavam a prender, torturar e condenar dissidentes.

Mais do que isso, confirmando a sua intenção de manter o Egito sob tutela, em qualquer configuração institucional, as Forças Armadas fizeram saber que continuará ser delas a prerrogativa de nomear e demitir primeiros-ministros - e não do Parlamento que seria eleito daí a pouco. Além disso, da comissão de 100 notáveis encarregada de redigir a nova Constituição, 80 seriam de livre escolha da caserna. Por fim, a Carta teria de sacramentar a plena autonomia das Forças Armadas para montar o seu orçamento, gerir os empreendimentos econômicos de que são guardiães, operadoras e beneficiárias, e fazer a guerra e a paz. Os jovens voltaram a Tahrir, onde 40 perderiam a vida, para exigir a saída imediata dos militares e pregar o boicote das eleições, se ficassem. Receberam apenas um inédito pedido de desculpas pelas mortes de manifestantes e a promessa da realização de eleição presidencial em meados do ano que vem.

E o povo foi, sim, às urnas na última semana de novembro. No Cairo, Port Said e Alexandria, as principais cidades da área por onde começaria a votação (na segunda área vota-se na semana que vem e, na terceira, no início de fevereiro), pacientes eleitores formaram filas literalmente quilométricas para exercer o seu direito. Houve seções eleitorais com 18 mil inscritos, outras com 24 mil. Contados os sufrágios depositados por 52% da população apta a votar, os filhos de Tahrir tiveram um choque: a coalizão liberal Bloco Egípcio, apoiada pela imensa maioria deles, obteve apenas 13,3% dos votos. Praticamente todo o resto premiou os islâmicos - além do que já se previa. E, entre as suas duas principais forças, o Partido Liberdade e Justiça, da Irmandade Muçulmana, o disciplinado movimento fundado há 83 anos (que só perde em organização para as Forças Armadas do país) não chegou aos 40% que esperava. Ficou com 36,6%. Já o Partido Al-Nur, que representa os fanáticos arquiconservadores salafistas, alcançou 24,3%, quando se falava em 20% ou menos.

É muito improvável que as rodadas eleitorais restantes, em redutos conservadores, transformem esse panorama - o mesmo, por sinal, dos pleitos na Tunísia e no Marrocos. Uma aliança dominante entre a Irmandade e o Nur, com os militares arbitrando os negócios de Estado, é um pesadelo para os jovens liberais e seculares que revolucionaram o Egito.

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