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A rua, o eleitor e os candidatos

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Gaudêncio Torquato

O ano era o de 64 antes de Cristo. O candidato, Marco Túlio Cícero, o tribuno mais eloquente do ciclo de César, tinha o apoio das classes altas. Disputava-se o cargo de cônsul de Roma. O adversário, o general Catilina, era o candidato do proletariado. O marqueteiro de Cícero, Quinto, seu irmão, considerado o primeiro organizador de estratégias de marketing, enviou-lhe uma carta cheia de recomendações: "Volte sua atenção para a cidade, todas as associações, os distritos e os bairros; vá ao encalço de homens de toda e qualquer região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça a amizade, cuidando para que eles cabalem votos para você; três são as coisas que levam as pessoas a se sentir cativadas e dispostas a dar apoio eleitoral: um favor, uma esperança ou a simpatia espontânea". Cícero venceu, repetiu a vitória um ano depois, acusou Catilina de corrupção, roubo, adultério, perversão e puxou sua orelha com a célebre interrogação: "Quousque tandem abutere Catilina patientia nostra?" ("Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?").

Os conselhos de Quinto, suportando a corrosão de mais de dois milênios, chegam incólumes ao cenário eleitoral brasileiro, sendo receita eficaz para os 24.979 candidatos que disputarão, em outubro, 1.709 vagas - para a Presidência da República, o Executivo dos 26 Estados e do Distrito Federal, as representações no Senado, na Câmara dos Deputados e nas Assembleias legislativas. O tufão que inundou as ruas no ano passado, com grupos em passeatas e depredações, cujas marolas ainda se fazem presentes aqui e ali, serve como biruta para mostrar aos candidatos a direção a seguir: ruas, becos, bairros, cidades. Tal apontamento se ancora no espírito do tempo, esse vetor que tende a imprimir aos ciclos eleitorais características peculiares, agendas condizentes com o ânimo social, discursos alinhados ao cotidiano. A lógica é cristalina: se o povo está nas ruas, os candidatos devem ir ao seu encontro.

Milton Nascimento, na bela música Nos Bailes da Vida, canta: "Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir aonde o povo está". Candidatos são os artistas do palco político. Cada eleição tem sua índole. A deste ano é a campanha de rua.

O barulho social bate nas portas dos Poderes. O eco espraia-se pelas teias organizadas por setores e categorias profissionais, organizações não governamentais e, mais importante, sob o empuxo da elevação do nível de conscientização política de participantes de todas as classes, até mesmo das margens. Sob o clamor geral, aos candidatos se impõe a lição de casa: conhecer os problemas regionais, absorver as prioridades de cada compartimento da pirâmide e dar respostas adequadas e factíveis às reivindicações (demonstrando como realizarão as promessas). A diferença de outros pleitos se escancara. Hoje a percepção do eleitor é mais aguda, situação apontada não apenas pelo ajuntamento de conglomerados eleitorais, mas também pela baixa avaliação que faz de governos e candidatos.

O que motiva a contundente expressão social? Entre as hipóteses, alinham-se o sentimento da nova classe média (C) de que não alcançou o mesmo patamar de sua vizinha de cima, a classe B; a sensação de que os ganhos obtidos se esvaem no ralo da inflação; a precariedade dos serviços públicos; o receio de voltar ao andar de baixo da pirâmide; a maré enchente de escândalos, desvios e corrupção, que estende o fosso entre o universo político e o eleitor... Em suma, a sensação generalizada de que o País gira em torno de si mesmo, tateando sofregamente na trilha esburacada de grandes deficiências. Não é exagero aduzir que a comunidade nacional grita em uníssono: basta de mesmice!

A indignação é solfejada por um conjunto formado por tipos variados de eleitores, entre os quais se incluem amorfos, emotivos, pragmáticos, locais, religiosos, esclarecidos/racionais. Grupamentos de baixo nível de conscientização, que tendem a estender braços ao populismo, habitam principalmente o território que agrega 54% (72 milhões) dos 142 milhões de eleitores que não chegaram a concluir o primeiro grau. Constata-se, porém, que mesmo na terra desse eleitorado se ouve acentuado teor crítico, a denotar menor dispersão e olhar atento. O fato é que os currais das turbas ignaras se vão fechando. Veja-se a pressão de grupos como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto. O voto segmentado, direcionado, será mais volumoso que o de ontem, a refletir a organicidade social do País. Um bloco em ascensão é o do voto religioso, até comporta candidato próprio, na demonstração de que os credos evangélicos e o mercado da fé, endinheirados, passam a ser parceiros poderosos da política.

O bolo eleitoral incha com o fermento das redes sociais, formando exércitos de ataque e de defesa em torno dos atores políticos. A virulência verbal recrudesce. Até grupos tradicionalmente alheios à política, como os jovens, se envolvem na malha eletrônica, que passa a exercer papel importante no debate nacional.

Resta, por último, retratar a galeria de candidatos. O perfil predominante acaba de sair do forno do TSE: homem, branco, casado, sem ter concluído o ensino superior. Se considerarmos que a população brasileira é constituída, segundo o Pnad, por 47% de pessoas brancas, 43% de pardas e 8% de negras, a proporção de candidatos brancos supera o conjunto. As mulheres entram na arena eleitoral com apenas 29,7% do total de candidatos (7.410), apesar de constituírem maioria da população (51,5%). O painel de profissões mostra fatia maior de candidatos que se dizem empresários (9,3%), advogados (5,5%), comerciantes e políticos (deputados, vereadores). O circo eleitoral abre suas cortinas para os olimpianos da cultura de massa - artistas e ex-jogadores de futebol -, que tentarão atrair votos com sua fama. Sem o sucesso de outrora.

Ao fundo, o eleitor insatisfeito parece gritar: "Até quando, candidatos, abusareis da nossa paciência?".

* Jornalista, professor titular da USP, é consultor político e de comunicação

Twitter: @gaudtorquato

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