A saúde pode melhorar!

A Campanha da Fraternidade é promovida no nosso país todos os anos pela Igreja Católica, durante o período da Quaresma. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escolhe temas que tenham significativo interesse social e público, convidando a aderir também quem não adere à Igreja Católica, mas se dispõe a unir esforços na busca de solução para as questões postas.

O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2012 | 03h06

A cada cinco anos, de fato, a Campanha da Fraternidade tem sido realizada em conjunto com várias outras Igrejas cristãs não católicas. O propósito é suscitar reflexões e ações, durante e depois do período da campanha, que ajudem a alcançar os objetivos propostos.

Neste ano o tema é de premente atualidade, "Fraternidade e Saúde Pública", com a proposta de uma ampla reflexão sobre a situação da saúde no Brasil em vista de uma vida saudável para todos. A meta é suscitar um grande esforço solidário para que o bem da saúde esteja ao alcance de todos. Isso requer atenção e cuidado fraterno para com os enfermos, mas também mobilização para a melhoria do sistema público de saúde.

O cuidado dos doentes e a atenção à saúde das pessoas sempre fizeram parte do cristianismo. O próprio Jesus Cristo deu o exemplo, sempre atencioso com os doentes, que o procuravam em grande número (cf. Mt 9,35), assumindo sobre si as dores e os sofrimentos da humanidade (cf. Mt 8,17). Ao enviar os discípulos em missão, recomendou com insistência que também eles cuidassem dos doentes (cf. Mt 10,1).

Em vista dessa ordem do seu Mestre, ao longo da História a Igreja Católica e os cristãos, de modo geral, dedicaram-se aos enfermos, quer para lhes levar o conforto espiritual, quer para socorrer suas necessidades de assistência, cura e recuperação da saúde. A Igreja instituiu hospitais e estruturas de atendimento aos doentes por toda parte muito antes que, finalmente, os Estados o assumissem; ainda hoje, irmandades, associações, congregações e ordens religiosas dedicam-se ao cuidado dos doentes.

Os tempos mudaram e o cuidado da saúde da população toda passou a ser visto como tarefa do Estado e objeto de políticas públicas, a serem promovidas de maneira eficaz pelos governos. Parte significativa dos impostos pagos pela população deveria ser destinada a financiar os cuidados com a saúde dos cidadãos. A lei brasileira não só o promete, mas estabelece que sejam promovidas políticas públicas eficazes para assegurar este bem a toda a população, Isso, evidentemente, requer vultosos recursos e sua correta aplicação. Inegavelmente, muito já se fez nesse sentido desde que a Constituição federal de 1988 entrou em vigor. Há, no entanto, ainda muito por fazer.

A instituição do Sistema Único de Saúde (SUS) foi, certamente, um avanço, mas para alcançar a meta do atendimento universal à saúde dos brasileiros há muito caminho a percorrer. A imprensa tem mostrado a carência de atendimento médico e hospitalar em várias partes do País, ou a existência de estruturas de saúde muito inadequadas ou deficientes para atender às demandas da população. Mostrou também morosidade no atendimento e até fatos lamentáveis de corrupção e desvio de verbas que deveriam ter sido aplicadas no cuidado da saúde do povo. A ineficiência ou até a inexistência de estruturas públicas de saúde obrigam os cidadãos a recorrer a seguros e sistemas privados de saúde, que, porém, estão fora do alcance da maioria dos brasileiros, por serem muito caros.

Políticas públicas de saúde poderiam também assumir mais decididamente um caráter educativo e preventivo, para alertar contra os riscos para a saúde e estimular o cultivo de hábitos saudáveis. Embora já existam louváveis campanhas preventivas, como as que visam a saúde materno-infantil, os perigos da dengue e os males decorrentes do fumo e da aids, ainda não recebem a mesma atenção outras questões que também envolvem notórios riscos para a saúde da população, como a ingestão demasiada de álcool (não apenas para quem dirige!), o consumo de drogas e de alimentos impróprios para a saúde.

Vejo com satisfação a implementação de leis e campanhas antifumo. Recentemente também apareceu uma interessante chamada publicitária para prevenir contra o uso do crack. Por que se demorou tanto para fazê-la?! Tivesse sido feita há mais tempo, talvez não se tivesse chegado aos cenários deprimentes das cracolândias, que se espalham pelas cidades grandes e pequenas do País.

E por que não se fazem campanhas mais incisivas para incentivar hábitos saudáveis de alimentação e de vida, alertando para os riscos de uma alimentação inadequada e de hábitos danosos? Muitas doenças poderiam ser evitadas e, também, aliviados pesados encargos para o Estado e para o cidadão com o tratamento de doenças decorrentes da alimentação; a saúde da população poderia melhorar muito. Pelas mesmas razões, por que não tratar igualmente a violência contra a pessoa, em geral, mas também no esporte e no trânsito, como verdadeiros problemas sociais e questões de saúde pública? Tais também são o alto índice de poluição do ar em grandes aglomerados urbanos, o déficit de saneamento básico e de moradias dignas para muitas pessoas, que ainda vivem em cortiços e favelas, ou até pelas ruas das cidades!

Se a implementação de políticas públicas eficazes de saúde para a população é uma incumbência dos governantes, não deixa de ser tarefa também dos cidadãos. Por isso a Campanha da Fraternidade convida a somar esforços para alcançar esse objetivo. Para quem tem fé religiosa, o caminho que leva a Deus nunca pode desviar da vias dolorosas em que jazem tantos irmãos... E para quem não tem fé, a própria sensibilidade humana desautoriza a ficar indiferente diante do sofrimento do próximo e da sua qualidade de vida diminuída.

 

 

DOM ODILO P. SCHERER, CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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