A sombra do desemprego

A maior crise mundial dos últimos 80 anos ainda poderá agravar-se e levar mais alguns milhões ao desemprego, se os governos do mundo rico, principalmente da Europa, insistirem nas políticas seguidas até agora, sem buscar uma nova combinação entre medidas de ajuste e ações de estímulo ao crescimento. No cenário mais pessimista, 4,5 milhões de trabalhadores irão juntar-se aos atuais 17,4 milhões de desempregados na zona do euro, até 2015, advertiu a Organização Internacional do Trabalho (OIT) em relatório divulgado nesta semana. Outro alerta partiu da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada por 34 países, na maior parte desenvolvidos. Segundo seu relatório anual sobre as perspectivas do emprego, a desocupação permanecerá elevada no próximo ano e meio, com algum recuo nos EUA e na Alemanha e novo aumento na zona do euro. Se a esse quadro se acrescentar uma desaceleração econômica na China, as economias emergentes e em desenvolvimento, como a brasileira, terão pela frente um ambiente externo excepcionalmente desfavorável.

O Estado de S.Paulo

12 Julho 2012 | 03h09

Será o contrário daquele observado na maior parte da última década, quando alguns desses países foram impulsionados pela prosperidade geral e puderam crescer mesmo sem avançar na agenda de reformas há muito necessárias. Foi esse, claramente, o caso do Brasil. Com o País favorecido pela bonança internacional e especialmente pelo crescimento chinês, o governo petista permitiu-se deixar em segundo plano, ou mesmo abandonar, a pauta da modernização. Quando ficou evidente o enfraquecimento da indústria diante dos concorrentes estrangeiros, as autoridades - e até alguns líderes empresariais - atribuíram as dificuldades à valorização cambial e aos juros elevados.

Não há mais como sustentar essa fantasia nem condições para continuar adiando medidas mais sérias que os estímulos de curto prazo adotados até agora. A conjuntura externa vai continuar ruim, mas os problemas brasileiros são mais que conjunturais, como já reconhecem vários líderes da indústria. É preciso preparar a empresa nacional para sobreviver e disputar espaço num mercado global cada vez mais difícil. Nos países da OCDE, o desemprego atual, estimado em 7,9%, está abaixo do pico atingido em 2009, de 8,5%. Pela nova projeção, poderá voltar a 8% em 2012 e recuar para 7,7% no fim do próximo ano e ainda será muito alto.

No caso dos EUA, a OCDE estima um recuo dos atuais 8,1% de desemprego para 7,4% no fim de 2013. A desocupação na Alemanha cairá, segundo a projeção, de 5,4% para 5,2%. Mas a desocupação deverá aumentar no resto da zona do euro, passando dos 10,9% para 11,8% no próximo ano e meio.

Para o Fed, o banco central americano, a economia dos EUA poderá continuar em recuperação, embora a evolução nos últimos meses possa ser mais lenta do que se previa. O quadro ficará pior, no entanto, se o desentendimento entre governo e oposição levar a um aperto orçamentário maior no próximo ano fiscal. Essa advertência foi formulada há poucos dias também pelo FMI.

Na Europa, os defensores da política baseada no arrocho - os mais influentes são os alemães - têm feito pequenas concessões. Admitiram a mobilização de 120 bilhões para investimentos em infraestrutura. Isso poderá dar algum impulso à criação de empregos, mas sem mudar muito o cenário.

O governo espanhol terá um ano a mais para alcançar as metas fiscais. Mas é difícil prever se haverá alívio efetivo, porque as autoridades acabam de anunciar um aperto orçamentário de 65 bilhões até o fim de 2014. A economia será obtida, segundo o plano, por meio de cortes de gastos e aumentos de impostos.

O novo arrocho foi anunciado logo depois de confirmada a liberação de 30 bilhões para os bancos espanhóis, primeira fatia de uma ajuda de 100 bilhões. Outros governos, incluído o italiano, estão empenhados em ajustes e reformas e têm demonstrado bons propósitos. Não há, no entanto, sinais de reativação e a retomada na Europa continua além do horizonte.

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