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A sombria prévia do PIB

O bolão da recessão, tudo indica, vai premiar quem apostou numa retração econômica em torno de 3,7% em 2015. Qualquer dado sensivelmente melhor será uma surpresa, a julgar pelos últimos números da produção industrial e do consumo e, muito especialmente, pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br).

Em novembro, esse indicador foi 0,52% menor que em outubro e 6,72% inferior ao de um ano antes, na série com desconto de efeitos sazonais. O resultado de janeiro a novembro ficou 3,88% abaixo do calculado em igual período de 2014, pela mesma série. A conta de 12 meses apontou um nível de atividade 3,63% mais baixo. O cálculo oficial do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 deve ser divulgado no começo de março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O IBC-Br é normalmente considerado uma boa antecipação.

Uma contração de 3,7% era a estimativa corrente no mercado, no fim do ano, segundo a pesquisa Focus, uma consulta a cerca de cem instituições financeiras e consultorias conduzida semanalmente pelo BC. A última aposta do BC, divulgada em dezembro em seu relatório trimestral de inflação, foi um recuo de 3,6% no PIB. Sua avaliação anterior havia sido uma variação negativa de 2,7%. O relatório de dezembro também projetou para este ano uma recessão de 1,9%. No mercado, a mediana das estimativas para 2016 chegou a –2,99% na pesquisa divulgada na última segunda-feira.

O desastre econômico de 2015 está bem configurado nos últimos indicadores de atividade publicados pelo IBGE. Os mais recentes são de novembro, assim como o IBC-Br, e ainda será preciso, depois de completados os números do ano, compor o conjunto do PIB. Mas o número final será, sem dúvida, o pior em décadas. De janeiro a novembro a indústria geral produziu 8,1% menos que nos meses correspondentes de 2014. O quadro ainda piorou em novembro, quando a produção foi 12,4% menor que a de um ano antes.

Também de novembro são os últimos números do varejo publicados pelo IBGE. Em novembro, o comércio varejista vendeu pouco mais que em outubro, ajudado por promoções e por alguma antecipação de compras de Natal, mas os números acumulados em 12 meses continuaram muito ruins. O chamado varejo restrito encolheu 3,5% nesse período, enquanto o varejo ampliado – com a inclusão de veículos, motos e peças e material de construção – vendeu 7,3% menos que no período anterior.

Os dados mais amplos do emprego são os do trimestre até outubro e resultam da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, conduzida pelo IBGE em 3.464 municípios. É um levantamento bem mais amplo e informativo que a velha pesquisa mensal de emprego, limitada às seis maiores áreas metropolitanas. Pelas últimas informações da Pnad, estiveram desempregados no período de agosto a outubro 9,08 milhões de pessoas, ou 9% da força de trabalho. Um ano antes a taxa era de 6,6%.

O desemprego em alta, com renda familiar em queda, está refletido na redução das vendas do varejo, também muito influenciadas pelo aumento de juros, pela contração do crédito e pela redução dos estímulos tributários ao consumo. A redução de 16,7% nas vendas de veículos e componentes, em 12 meses, é um dos efeitos da eliminação dos estímulos.

Ninguém deve iludir-se quanto à natureza dos problemas. Longe de ser um fenômeno conjuntural, a recessão iniciada em 2014 reflete deficiências estruturais – a perda de poder de competição da indústria, a redução geral da produtividade, o crescente desajuste das contas públicas e a inflação persistente e muito acima dos padrões internacionais. O baixo nível de investimento físico nos últimos anos – de janeiro a novembro de 2015, por exemplo, a produção de máquinas e equipamentos foi 25,1% menor que a de um ano antes – limita o potencial de recuperação econômica. Com tantos dados negativos, é difícil de dizer onde começa o pessimismo.