A surpresa da China

Com a surpreendente decisão de reduzir a taxa básica de juros - fato que não ocorria desde dezembro de 2008, quando a primeira onda da atual crise começou a afetar todos os países -, o governo chinês mostrou que está mais preocupado com a desaceleração da economia do que aparentava até há pouco.

O Estado de S.Paulo

09 Junho 2012 | 03h09

Para tentar estimular a atividade econômica, as autoridades chinesas vinham aumentando a disponibilidade de dinheiro para os financiamentos, por meio da redução do depósito compulsório que os bancos comerciais recolhem ao Banco Popular da China, o banco central do país. Essa medida foi usada três vezes desde o final do ano passado. Desta vez, o governo de Pequim foi mais agressivo, cortando o juro básico em 0,25 ponto porcentual, para 6,31% ao ano. Além disso, ampliou a margem de manobra dos bancos na definição dos juros de suas operações (antes limitada a 10% da taxa básica, a margem agora é de 20%), medida interpretada como um avanço na direção da liberalização do setor financeiro.

Decisões do governo chinês na área econômica e financeira são acompanhadas com atenção no resto do mundo, pois, com o agravamento da crise europeia e as dificuldades da economia americana para retomar o crescimento contínuo, o papel da China tem sido decisivo para evitar a deterioração ainda maior da economia mundial. O Brasil tem na China o principal mercado para seus produtos, daí a importância do desempenho da economia chinesa para o País.

A redução do juro básico gerou entre os analistas internacionais uma sensação dúbia. Com essa decisão, o governo de Pequim mostrou disposição de evitar que a desaceleração da economia resulte em problemas sociais graves. Quanto menos a economia chinesa se desacelerar, melhor para o resto do mundo. Mas a adoção de medidas que só tinham sido utilizadas em momentos graves pode indicar que, na avaliação do governo, a redução do ritmo de crescimento está sendo maior do que o desejável.

A redução dos juros e o aumento da oferta de crédito visam a evitar que o problema se agrave. A China vem, há tempos, acumulando sinais de redução do ritmo de crescimento. Nas províncias cuja economia é mais dependente das exportações, fábricas estão sendo fechadas. Em muitas cidades em que a indústria da construção recebia grandes investimentos, o regime de três turnos de trabalho diário está sendo reduzido para dois turnos ou apenas um.

Nos primeiros quatro meses do ano, o crescimento dos investimentos em ativos fixos foi o menor desde 2001. Também o aumento das vendas no varejo em abril foi o menor em dez anos. No primeiro trimestre, o PIB chinês cresceu 8,1% em relação a igual período de 2011. Foi o resultado mais baixo nos últimos três anos.

O comércio exterior e os investimentos puxaram o crescimento nas duas últimas décadas e transformaram a China na segunda maior economia do planeta. Agora, o governo chinês tenta mudar o modelo que sustentou o desenvolvimento até aqui, voltando cada vez mais o foco para o consumo interno. Se a mudança der certo, a China passará a importar mais, o que estimulará a economia mundial.

Além de evitar a desaceleração mais acentuada da atividade econômica, a redução dos juros pode estimular essa mudança. Por isso, a decisão chinesa ajuda a melhorar a percepção dos investidores internacionais sobre os rumos da economia mundial neste ano e já estimula as previsões de que os preços de alguns produtos dos quais a China é grande consumidora podem melhorar nos próximos meses. Isso interessa particularmente ao Brasil, pois seu principal produto de exportação, o minério de ferro, tem a China como o maior comprador.

Nos últimos anos, a China foi a principal responsável pelo bom desempenho das exportações brasileiras. Há mais de dez anos nossas vendas para o mercado chinês crescem a um ritmo superior a 10% ao ano - ou cresceram, pelo menos até o ano passado. Nos primeiros quatro meses de 2012, no entanto, o aumento se reduziu a 7,6%.

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