A urgência de Francisco

Em sua primeira exortação apostólica, divulgada na última terça-feira, o papa Francisco reafirmou categoricamente sua defesa de uma Igreja Católica com vocação missionária, voltada para seus fiéis, e não para si mesma. Como tem sido habitual em suas manifestações a esse respeito em seus oito meses de pontificado, Francisco imprimiu um tom de urgência: "Espero que todas as comunidades se esforcem por implementar os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão".

O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2013 | 02h14

A exortação, intitulada Evangelli Gaudium (A Alegria do Evangelho), embora seja formalmente menos significativa que uma encíclica, é a oficialização da mudança que Francisco espera promover no comportamento da Igreja. Não se trata de uma reforma nem de um debate teológico - especialidade de seu antecessor, o papa Bento XVI -, e, sim, de uma exposição de propósitos e valores, um guia para a entidade que ele governa.

Logo no primeiro capítulo, Francisco critica a paralisia da Igreja, ao defender que ela saia "da própria comodidade", e sublinha a necessidade de chegar aos desvalidos, alcançando "todas as periferias que precisam da luz do Evangelho". Ademais, diz o papa, a Igreja deve estar atenta aos novos "ambientes socioculturais", que demandam "métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual". Até os desafios ambientais mereceram sua atenção no documento.

Para Francisco, esse dinamismo dos novos tempos demanda uma "reforma das estruturas" da Igreja, desde as paróquias - que devem estar "realmente em contato com as famílias e com a vida do povo" - até o próprio papado - que tem de estar "aberto às sugestões" que o ajudem a entender "as necessidades atuais de evangelização". Em outras palavras, embora obviamente as decisões finais sobre doutrina permaneçam sendo prerrogativa do papa, Francisco estimula a participação colegiada das conferências episcopais, "incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal".

Tal abertura, prevista no Concílio Vaticano II, nunca foi adotada em sua plenitude - e isso, para Francisco, é um grande problema, pois "uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária".

Sobre essa missão, Francisco reafirma seu perfil jesuíta, ao exortar os "discípulos missionários" a se envolverem, a "procurar os afastados". Nesse trecho do documento, o papa se permite um neologismo, pelo qual se desculpa: ele diz querer discípulos que "primeireiam", isto é, que "tomam a iniciativa". Os evangelizadores, diz o papa, precisam contrair o "cheiro de ovelhas", isto é, têm de estar no meio do povo.

Esse "estado permanente de missão", como classificou Francisco, tem como desafio ajudar também as vítimas de "novas formas de pobreza e fragilidade", como os dependentes de drogas, os refugiados e os idosos. O papa reafirmou sua crítica à "economia de exclusão", à "idolatria do dinheiro" e à "tirania invisível" dos mercados e disse que, para atuar nesse contexto, é necessária uma "Igreja pobre para os pobres", que deve estar sempre de "portas abertas", para que os necessitados não esbarrem "na frieza duma porta fechada".

Sem o refinamento de Bento XVI, mas com absoluta franqueza, Francisco diz que prefere "uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças".

Embora reafirme a doutrina acerca de temas como aborto e ordenação de mulheres, o papa critica aqueles que se aferram a "um certo estilo católico próprio do passado", que isola a Igreja e afasta os fiéis. Essa "suposta segurança doutrinal", diz Francisco, enseja "um elitismo narcisista e autoritário", que não evangeliza e serve apenas para "analisar e classificar os demais". A Igreja que Francisco visualiza não é "uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos", e, sim, uma entidade com "capacidade de diálogo com o mundo".

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