A versão dos espiões

Chamados a depor no Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes, o czar da espionagem americana, James Clapper, e o diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA), general Keith Alexander, trataram de cumprir à risca o primeiro mandamento de toda grande burocracia quando se vê acuada: preservar-se a que preço for - começando por transferir responsabilidades. Não foi propriamente uma edificante demonstração de lealdade ao governo a que servem.

O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2013 | 03h23

Justiça lhes seja feita, porém. Nem o colossal aparato que dirigem, nem a Casa Branca de Barack Obama, nem o Capitólio parecem ter um plano para livrar Washington da enrascada a que foi arremetida pela sequência aparentemente infindável de revelações do arrependido funcionário terceirizado da NSA, Edward Snowden (por intermédio do jornalista Glenn Greenwald, baseado no Rio de Janeiro) sobre os extremos a que chegou o sistema americano de arapongagem global, em nome da defesa contra o terrorismo.

Enquanto as evidências expunham, além do grampeamento em grande escala das comunicações de cidadãos americanos, a bisbilhotice das conversas da presidente Dilma Rousseff e do mexicano Enrique Peña Neto, o incêndio ainda parecia controlável, embora Dilma tivesse cancelado a sua visita de Estado aos EUA e proferido incisivo discurso a respeito na ONU. O escândalo mudou de figura só quando começaram a vazar informações sobre os alvos europeus da espionagem americana.

As novas denúncias incluem a da interceptação - em apenas um mês - de estonteantes 70 milhões de comunicações na França e de outros 60 milhões na Espanha. É a enésima prova de que é da natureza dos poderes secretos buscar tudo o que podem, mesmo que não consigam depois digerir o que obtiveram. Mas a gota d'água foi a divulgação de que o celular da líder conservadora alemã Angela Merkel começou a ser grampeado em 2002, três anos antes de ela se eleger. A Alemanha, como se sabe, é um dos maiores aliados dos EUA.

Um atabalhoado Obama assegurou que o seu país não espiona nem irá espionar a chanceler. Faltou dizer o indizível: desde quando parou de espioná-la. Ele tampouco pode dizer se tinha ou não conhecimento do fato. Em qualquer hipótese, seria um vexame. Na Câmara, Clapper e Alexander não facilitaram a sua vida. O primeiro afirmou que a Casa Branca sabe, sim, o que a NSA faz, incluindo a espionagem de governantes amigos, "mas não em detalhe". O segundo imputou aos serviços europeus a vigilância sobre os cidadãos de seus países, cujo produto repassavam à NSA. E afirmou ser "completamente falsa" a versão de Snowden sobre mais de 100 milhões de grampos.

O essencial é que ambos insistiram em que espionar líderes estrangeiros é básico no ofício e que a Europa também tenta monitorar Washington. Pode ser, mas os apanhados com os fones nos ouvidos foram os EUA - e isso é o que conta. Espionar, afinal, não é só capturar segredos: é manter a captura em segredo. De resto, o argumento da NSA de que faz o que os outros fazem podia ter sentido na guerra fria. Hoje, como atestam as juras de Obama de rever os procedimentos dos seus arapongas e a posição do Congresso contra a invasão indiscriminada da privacidade de terceiros, a alegação passou do prazo de validade.

O papel de linha-dura na história foi assumido pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron. Ele cobrou da mídia do Reino Unido - cujos serviços de inteligência trabalham em dupla com os americanos - "responsabilidade social" para evitar ser processada, ou submetida a uma obscura forma de censura prévia, pela divulgação de notícias que supostamente ponham em risco a segurança nacional. O alvo da intimidação é The Guardian, onde o colunista Glenn Greenwald publicou algumas das principais revelações de Snowden. O jornal retrucou que o governo distorce a legislação para equiparar a atividade jornalística a "atos de terror". E comparou: "Imagine o presidente Obama ameaçando o New York Times ou o Washington Post".

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