A viúva nas nuvens

A arrasadora reeleição da presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner - que obteve domingo cerca de 54% dos votos, ante 17% do segundo colocado, o socialista Hermes Binner - tornou-a a mais popular dirigente de seu país desde Juan Domingo Perón, que também obteve dois mandatos sucessivos. Com a diferença de que ela jamais tinha mostrado vocação ou talento para líder de massas. Conduzida ao poder em 2007 pelo marido Néstor Kirchner, a fim de ocupar, à sua sombra, a cadeira que ele pretendia reaver daí a quatro anos, a arrogante "presidenta", de início, desapontou de tal modo os argentinos que o seu índice de aprovação chegou a 23%. E, em 2009, o governo perdeu a maioria na Câmara dos Deputados.

O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2011 | 03h07

Foi um paradoxo. Apesar da retração da economia mundial na esteira da crise financeira de 2008, a Argentina crescia a taxas asiáticas, numa inesperada metamorfose. Depois do derretimento do país, entre 1998 e 2002, quando o PIB nacional despencou 20% - mais do que o da Grécia hoje em dia -, Kirchner deu o calote na dívida, reestruturou o governo e pisou fundo no acelerador para resgatar a atividade industrial e o emprego. No mandato de Cristina, a dupla acrescentou ao modelo desenvolvimentista gastos maciços em programas de bem-estar social, incluindo subsídios ao consumo de água e energia e ainda ao transporte público. Mesmo assim, era o marido, não a mulher, quem a população aplaudia.

Os argentinos não podiam suspeitar que, golpeada pelo acaso - a súbita morte de Néstor, que completará um ano depois de amanhã -, Cristina revelaria uma força interior incomum e não menor aptidão para concentrar o poder, manipular a política e se fazer querida pelo povo. Nesses 12 meses, criou inumeráveis situações para cultuar o falecido - "ele", como lhe basta dizer - e se agigantou no papel de continuadora de sua obra social. Enquanto isso, continuou a perseguir o principal grupo de mídia do país, que edita o jornal portenho Clarín, por ter tido o desplante de deixar de apoiá-la quando da sua queda de braço com o setor rural há três anos. Se há algo que não cabe na Casa Rosada kirchnerista é a tolerância com o dissenso.

É bem verdade que de uns tempos para cá Cristina passou a adotar uma expressão corporal de bonomia - por exemplo, recebeu de braços abertos a adesão da antes hostil confederação da indústria. Nomeou para a Fazenda o telegênico empresário e economista de formação liberal Amado Boudou, a quem promoveria a companheiro de chapa, e se distanciou do sindicalismo peronista encarnado na mafiosa CGT. De seu lado, fracionada por disputas mesquinhas e sem ter nada a contrapor ao oficialismo, a oposição fez por merecer a verrina de um comentarista do La Nación, Carlos Reymundo Roberts, para quem os opositores, por sua pusilanimidade, deviam cobrar direitos autorais pelo êxito do kirchnerismo.

Decerto muitos deles já se acotovelam para aderir à presidente reeleita, ampliando a folgada maioria que já tinha no Congresso e dando condições para as mudanças constitucionais destinadas a "aprofundar o modelo" - o mote de Cristina para os próximos quatro anos. Ou mais, se de fato ela patrocinar a emenda que lhe permitiria concorrer indefinidamente à Casa Rosada. Mas "a viúva que ganhou todas", como diz a revista The Economist, terá na economia os seus grandes desafios. As contas nacionais estão se deteriorando, apesar dos US$ 48 bilhões em reservas. A fuga de divisas deve ultrapassar US$ 20 bilhões no ano, o peso está sobrevalorizado, o país continua sem acesso aos mercados financeiros e o investimento privado decresce aceleradamente.

As róseas estatísticas do governo a esse respeito, por sinal, têm tanta credibilidade quanto o falseado índice oficial de inflação de 11%. A taxa real se mantém estável entre 20% e 25%. O espectro que ronda a Argentina é a desaceleração da economia brasileira - que absorve 20% de suas exportações - e um eventual soluço chinês. A bonança do Brasil e as compras chinesas de soja foram os pilares do formidável crescimento argentino sob o kirchnerismo - e das políticas sociais que levaram às nuvens a figura de Cristina Fernández.

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