Abandonando a Síria

No já distante 18 de agosto de 2011, o presidente Barack Obama deplorou a "feroz brutalidade" do ditador da Síria, Bashar Assad, contra sua própria população e disse que ele se tornara um "obstáculo" para a transição do país rumo a uma democracia. E acrescentou, sem meias palavras: "Pelo bem do povo sírio, chegou a hora de Assad deixar o poder". Passados quase dois anos, o número de mortos na guerra síria já superou 100 mil, segundo anunciou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e não há sinais de que o "obstáculo" será removido tão cedo - quer porque Assad tem conseguido conter os rebeldes que o acossam, quer porque os americanos admitem não ter nenhuma disposição de assumir os riscos de uma intervenção militar.

O Estado de S.Paulo

29 Julho 2013 | 02h06

Em relatório encaminhado ao Congresso americano, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, general Martin Dempsey, traçou um cenário delicado sobre uma eventual ação contra Assad. Para uma ofensiva aérea, por exemplo, "seriam necessárias centenas de aviões, navios e submarinos", com um custo na casa dos bilhões de dólares.

Mesmo uma zona de exclusão aérea, com o objetivo de criar uma área de segurança para que os rebeldes possam se organizar e para que a ajuda humanitária seja entregue, teria de mobilizar milhares de soldados e custaria cerca de US$ 1 bilhão por mês, segundo Dempsey. O general foi claro sobre todas as implicações de um engajamento militar na Síria ao dizer que, uma vez no front, os americanos devem estar preparados para situações imprevistas e que "um envolvimento mais profundo será difícil de evitar".

Depois das experiências traumáticas no Iraque e no Afeganistão e ante a prioridade dada à recuperação da economia, o governo e os contribuintes americanos não parecem dispostos a envolver-se em novo pesadelo militar, razão pela qual mesmo entre a oposição republicana há poucas vozes defendendo uma ação enérgica. Obama, que passou os últimos dois anos dizendo que os dias de Assad estavam "contados", agora começa a considerar plausível a hipótese de que o ditador não deixará o poder tão cedo.

Escolhendo cuidadosamente as palavras, o porta-voz de Obama, Jay Carney, disse recentemente que Assad "não governará mais toda a Síria de novo". Isso significa que, para a Casa Branca, o ditador continuará a governar ao menos alguma parte do território sírio num futuro previsível. Já o secretário de Estado americano, John Kerry, deixou claro que "não há solução militar para a Síria".

A reticência dos Estados Unidos tem vários motivos, além dos custos de uma eventual intervenção. O primeiro deles é a complexidade do problema sírio: os rebeldes estão longe de ser um grupo único, com liderança e objetivos claros, e entre eles há radicais islâmicos que não têm nenhuma intenção de estabelecer uma democracia na Síria. Além disso, uma intervenção poderia aprofundar os confrontos sectários que estão por trás da atual conflagração, com consequências terríveis.

Até aqui, a despeito da retórica de Obama, os Estados Unidos limitaram-se a impor sanções econômicas à Síria e a anunciar que treinariam os rebeldes e lhes forneceriam pequenas armas, mas mesmo essa ajuda ainda não começou. Ao mesmo tempo, contudo, houve intensa movimentação da Rússia e do Irã, que armaram Assad e tornaram ainda mais difícil uma operação militar para derrubá-lo. China, Rússia e Irã, ademais, têm auxiliado Assad enviando-lhe US$ 500 milhões mensais em petróleo.

Enquanto isso, a catástrofe humanitária na Síria prossegue, com 1,6 milhão de refugiados, o país se esfrangalha na luta entre as diferentes facções, e a ONU se limita a tentar organizar uma conferência de paz que, a esta altura do conflito, soa como uma fantasia.

O distanciamento americano da guerra síria é compreensível, mas terá implicações dramáticas: constitui um grande revés para a capacidade da comunidade internacional de, no futuro, pressionar e castigar ditadores sanguinários.

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