Abandono de pontes e viadutos

Poucos exemplos ilustram tão bem o descaso dos governantes com a manutenção de estruturas de fundamental importância para a população - cuja construção custou muito caro para os contribuintes - quanto a má situação em que se encontram há muito tempo as pontes e viadutos da capital paulista. As promessas de reforma dessas estruturas, que se vêm repetindo há anos, ao longo de vários governos - feitas quase sempre em seguida à ocorrência de um ou mais acidentes -, ou pura e simplesmente não são cumpridas, ou, no máximo, o são apenas parcialmente.

O Estado de S.Paulo

30 Julho 2012 | 03h07

Garante a Prefeitura que começam em agosto as reformas - que devem durar de quatro a nove meses - de nove pontes e viadutos, ao custo de R$ 13 milhões. Serão feitos reparos em partes das estruturas como juntas de dilatação e calçadas nos Viadutos Dona Paula e Alcântara Machado, na região central, e Raimundo Pereira de Magalhães, em Pirituba. E nas Pontes João Dias, Ari Torres, Cidade Jardim e Jaguaré, sobre o Rio Pinheiros, e Piqueri e Limão, sobre o Rio Tietê.

O sinal de alerta para a necessidade dessas obras foi dado pela ocorrência de vários acidentes desde o fim do ano passado. Em novembro, uma parte da calçada da Ponte dos Remédios desabou sobre o Tietê. Três meses depois, algo muito parecido aconteceu com o Viaduto Brigadeiro Luís Antônio, quando um pedaço de concreto de sua estrutura se desprendeu e atingiu um táxi. Nesse meio tempo, no princípio de janeiro, um incêndio no barracão de uma escola de samba, situado irregularmente nos baixos do Viaduto Pompeia, abalou sua estrutura e obrigou sua interdição. Em março, mais uma vez uma placa de concreto se soltou da estrutura de outra ponte - a do Morumbi.

Tudo isso deixou mais uma vez evidente as deficiências da manutenção desses equipamentos e os riscos daí decorrentes. Essa situação é conhecida há muito. Um estudo feito em 2005 pelo Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) concluiu que metade dos 240 viadutos e pontes da capital precisava de algum reparo, e que 10% deles, em situação mais difícil, necessitavam de reformas urgentes. Em 2006, um levantamento feito pela própria Prefeitura chegou a conclusão ainda mais pessimista - nada menos do que 90% dessas estruturas deviam sofrer algum tipo de reparo. Desde então, esse quadro preocupante pouco mudou.

É fácil saber por que se chegou a essa situação. A maior parte das pontes e viadutos de São Paulo foi construída nas décadas de 1950 e 1960 - há mais de meio século, portanto - e, desde então, nunca recebeu os cuidados de conservação necessários. Os principais problemas decorrentes desse descaso são infiltrações e falhas nas juntas. Acrescentem-se a isso duas agravantes. Uma - decorrente da falta de fiscalização eficiente - são os acidentes constantes com caminhões altos demais para circular principalmente pelas Marginais, que ficam entalados sob as pontes, abalando suas estruturas. Outra é o excesso de peso dos caminhões que por elas transitam. Elas foram planejadas para veículos de até 30 toneladas, mas há muito vêm suportando carretas de 50 toneladas.

Se tudo isso já é conhecido, e se são facilmente previsíveis as consequências para o trânsito caótico da cidade da interdição de várias pontes e viadutos - a que essa situação pode levar -, os paulistanos têm todo o direito de perguntar por que a Prefeitura nunca tomou, nesse e em governos anteriores, a decisão de reformar e bem conservar esses equipamentos. O máximo que ela fez, pressionada pelo Ministério Público Estadual, foi assinar com ele, em 2007, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), comprometendo-se a recuperar 58 pontes e viadutos. Só 27 foram reformados, aos quais se devem somar os 9 que agora deverão sofrer reparos.

É muito pouco, se considerarmos o que recomenda o resultado do levantamento feito por ela mesma. Isto significa que a situação continua a se degradar perigosamente. E, como a manutenção do que já está feito não dá dividendos políticos, dificilmente esse quadro vai mudar.

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