Agora é à mão armada

A anexação do governo Dilma à coleção de propriedades privadas por interpostos “amigos” do senhor Luiz Inácio da Silva, com a redução da presidente eleita à condição de uma OAS da vida, que se limita a assinar os cheques emitidos por ele, na sequência da maior manifestação da História deste país de repúdio à “quadrilha organizada para destruir com a arma da corrupção os fundamentos da democracia, da República e do Estado de Direito”, é só o ato de ocupação formal de um território previamente conquistado.

Fernão Lara Mesquita*, O Estado de S.Paulo

18 Março 2016 | 03h00

O lance decisivo que animou o PT a tanto se deu em 18 de dezembro de 2015. Enquanto o País se distraía com o fantasma de Eduardo Cunha, que os golpistas agitavam à sua frente, o Supremo Tribunal Federal, para reinstalar Leonardo Picciani, o rei da Olimpíada, na “barreira” à frente do gol do impeachment que Renan, o rei da Transpetro, fora contratado para defender, de onde tinha sido removido pelo voto dos representantes dos 204 milhões de brasileiros, instituiu uma inédita “democracia representativa criativa” à imagem e semelhança da contabilidade idem das contas públicas de Dilma Rousseff.

Na sequência a corte emitiu uma série de liminares “legalizando” renúncias e posses de suplentes encadeadas, além de reconversões de ministros em deputados e vice-versa, de modo a fabricar uma “maioria venezuelana” que sacramentasse no voto a recondução “no tapetão” de Leonardo Picciani.

Nesta fatídica quarta-feira, 16, enquanto Dilma Rousseff combinava ao telefone com Luiz Inácio o envio de emissário com o Termo de Posse ainda não havida e a redação do Diário Oficial esperava, com o dedo na ignição, para rodar a sua desprevenida e bem-intencionada “edição extra” com “notícias” escritas dias antes de acontecerem, reunia-se mais uma vez a severa Corte que só aceita promotores-ministros com prazo vencido para reconfirmar, com a maioria de seus ministros exibindo ar de enfado diante dos argumentos dos que insistiam em relacionar premissas com conclusões e causas com efeitos, que não importa quem esteja abaixo ou acima da corrente, os lobos decidirão sempre pelos cordeiros. Não valem maiorias nem de 2/3, para Casa contra Casa do Legislativo, nem absolutas dentro de cada uma, só vale o que disserem que vale os “líderes” da nova “democracia criativa”, o que reduz, como notou o ministro Toffoli, “a 28 indivíduos, na realidade até menos”, os cidadãos credenciados para decidir em nome de nós, os 204 milhões, quem tem ou não tem o direito de se lixar para o nosso consentimento nesse novo contrato social de araque.

O que a sequência que culmina com a substituição da “presidenta” pelo “amigo da presidenta” resulta de bom para o esquema do PT e seus sócios réus ou investigados pela Lava Jato é muito claro. Conforme antecipado tantas vezes pelo próprio Luiz Inácio em suas perorações ao Foro de São Paulo, o Brasil já desfruta, para esse efeito, de tanto “excesso de democracia” quanto a Venezuela, onde, diante da perda da maioria nas urnas pela ditadura de Nicolás Maduro, a mais alta Corte do país, na qual 13 dos 32 magistrados tinham sido substituídos pelo governo, impugnou eleitos bastantes para desfazer o que o voto popular tinha feito.

O que desta segunda reeleição sem votos de Luiz Inácio resulta de bom para o Brasil já é bem mais difícil de discernir. Ele e o PT advogam “uma guinada radical na política econômica”... de volta para o lugar de onde, por obra e graça deles próprios, ela nunca foi autorizada a se deslocar um milímetro que fosse. É exatamente por isso, aliás, mais que por qualquer outra razão objetiva presente há um ano e dois meses, que o País permaneceu paralisado desde que a “presidenta” reeleita pela mentira passou a encarar a verdade com Joaquim Levy, heresia que custou a ambos ir parar na geladeira junto com o resto da economia nacional.

Falar a esta altura em banir do horizonte qualquer reforma da Previdência e lançar mão das reservas para distribuir dinheiro aos governadores, relançar obras do PAC a cargo das empreiteiras da Lava Jato e distribuir carinhos ao eleitorado até 2018 seria nada menos que a senha para o “salve-se quem puder” que, para além dos outros aspectos sintetizados na onipresença dos “Pixulecos”, é o que explica a monumentalidade da histórica manifestação de 13 de março: o Brasil inteiro está à beira do pânico econômico lutando desesperadamente para se livrar dessa bomba de nêutrons cujas ondas de choque, avançando cada vez mais rápido em todas as direções, estão desfazendo a obra pregressa e matando o futuro de toda uma geração.

O problema fabricado pelo PT segue sendo o mesmo que Joaquim Levy fez ver em toda a sua assustadora minúcia matemática a Dilma e equipe, qual seja, que esse Estado de bocarra pantagruélica, mas sem nem o mais mínimo orifício de saída, abarrotado de “companheiros” e apaniguados dos pistoleiros da governabilidade, sobrecarregado de propinas eleitoreiras distribuídas às massas que se “petrificam” instantaneamente assim que criadas, como manda a Constituição de 88, por cima de uma já vasta montanha de entulho populista, estourou todos os limites da capacidade da Nação de sustentá-lo, mas nem por isso dá o menor sinal de “se tocar”: continua empregando, dando aumentos nos salários que já não consegue pagar, especialmente nos da camada politicamente apaniguada derramada por cima do funcionalismo que trabalha, distribuindo benesses e se deixando roubar como nunca antes na História deste país.

A resposta que se impõe continua sendo a que Joaquim Levy foi impedido de executar: tirar do caminho os podres poderes que dele se apropriaram e reduzir cirúrgica e drasticamente o tamanho do Estado, o que vale dizer reduzir drasticamente o tamanho do PT, coisa que Luiz Inácio e seus sequazes passaram um ano dizendo ao País que só por cima dos seus cadáveres.

Domingo o Brasil deu “ok” para essa parte. Desde então o assalto que prosseguia só na base da intimidação passou a ser à mão armada.

*Fernão Lara Mesquita é jornalista e escreve em www.vespeiro.com

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