Alegria, mas com respeito

Tanto as imagens como os números da festa na 23 de Maio impressionam e demonstram a adesão a ela de parte importante da população

O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2018 | 03h05

Este ano o carnaval de rua de São Paulo – com destaque para a Avenida 23 de Maio – foi um inegável sucesso de público, ao contrário do que acontecia até aqui, em comparação com outras grandes cidades, como o Rio de Janeiro e o Recife, onde ele sempre foi um dos pontos altos da festa. Deu certo a experiência, que foi como o prefeito João Doria a qualificou, com a ressalva de que o fechamento daquela avenida para os foliões levanta problemas sérios, que afetaram a vida de outros milhões de paulistanos que não participaram da festa. É preciso resolver tais problemas para que o carnaval de rua paulistano se consolide sem causar transtornos na vida da cidade.

Tanto as imagens como os números da festa na 23 de Maio impressionam e demonstram a adesão a ela de parte importante da população. Segundo dados da Prefeitura, aquela avenida recebeu 1,2 milhão de foliões no domingo e 1,95 milhão na segunda-feira, o que – mesmo sem considerar o que ocorreu em menor escala em vários outros pontos da cidade – já coloca o carnaval de rua de São Paulo entre os mais concorridos e animados do País. A festa já não se concentra no Sambódromo, com os desfiles de escolas de samba. A rápida multiplicação de blocos, que já são várias centenas, espalhou como nunca o carnaval por toda parte.

A população de uma cidade de poucos atrativos naturais como São Paulo – e conhecida como a que “nunca para” – merece tudo que se possa fazer para aumentar suas opções de lazer. Isso não implica, porém, fechar os olhos às evidentes falhas de planejamento do carnaval da 23 de Maio, que precisam ser corrigidas. Em benefício tanto dos próprios foliões como do restante da população – a maioria – que não participa do carnaval de rua, assim como dos que por ele podem ser prejudicados. Todos devem merecer igualmente a atenção das autoridades responsáveis pela festa.

Os organizadores acertaram em vários aspectos, como nos serviços de higiene, de segurança e socorro médico oferecidos. Mas alguns ficaram aquém do necessário. As filas de espera dos banheiros químicos levaram grande número de pessoas a fazer suas necessidades nas ruas, apesar das multas para esse caso, e o policiamento não conseguiu dissuadir outras tantas de consumir drogas ostensivamente.

Mais grave ainda, pelas suas repercussões negativas na vida de cidade, foram as falhas no planejamento viário para enfrentar as consequências do fechamento da 23 de Maio, assim como as do barulho para os vizinhos da avenida, principalmente hospitais. Os órgãos encarregados de organizar o trânsito – como a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) –, sempre muito eficientes quando se trata de multar, não se mostraram à altura do desafio de interromper o trânsito, por tanto tempo, numa avenida de grande importância para o sistema viário.

Não foram criadas alternativas viáveis para o grande número de paulistanos que utilizam a 23 de Maio para chegar a seus destinos, em especial os que buscam os muitos hospitais localizados nas adjacências dessa avenida. Hospitais que sofreram também com o barulho ensurdecedor de foliões e artistas contratados para animá-los com a ajuda de potentes aparelhos de som.

Esses problemas prejudicaram paulistanos – em seu sossego, seus deslocamentos e acesso a serviços hospitalares – cujos direitos são idênticos aos dos foliões. Seu número é certamente maior do que dos que querem se divertir nas ruas. Numa festa popular das dimensões do carnaval não há como evitar alguma contrariedade aos que não desejam dela participar. Mas essa contrariedade deve ficar em nível razoável.

É perfeitamente possível conciliar os interesses das duas partes e isso é função e obrigação das autoridades municipais e estaduais, que têm cada uma sua parcela de responsabilidade na questão. Se se constatar que não se pode fazer isso com o fechamento da Avenida 23 de Maio, que se escolha outra via para o carnaval de rua. É para isso que servem experiências como a que foi feita nela este ano.

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