Alerta sobre Ebola tem quase 40 anos

Está aí de volta o temor mundial de novas pandemias - seja por meio de vírus que se supunha estivessem confinados em lugares remotos (e se espalharam com o desmatamento e ocupações desordenadas), seja via novos surtos de gripe aviária, que chegaram à Alemanha, ao Japão, à Coreia, à China, à Inglaterra e à Holanda, entre outros países. Mas agora com o vírus H5N8 atacando criatórios (FAO, 25/11).

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2014 | 02h04

O destaque mais forte neste momento é para os casos de Ebola, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (Agência Estado, 13/11), já infectaram cerca de 15 mil pessoas em pelo menos oito países, das quais morreram quase 6 mil - e isso inclui Mali, Senegal, Serra Leoa, Libéria, Nigéria, até Espanha e Estados Unidos. Mais de 450 profissionais da área de saúde foram infectados, 244 morreram.

Pela primeira vez o Conselho de Segurança da ONU promoveu "encontro de emergência" por causa de ameaça à saúde, que "pode levar a sublevações e tensões sociais", além de riscos para o comércio mundial e o sistema financeiro (New Scientist, 27/9). O Banco Mundial avalia que o problema pode custar muitos bilhões de dólares à África até o fim do ano que vem; já reduziu em 50% o crescimento econômico na Guiné, na Libéria e na Serra Leoa, principalmente com os prejuízos de produtores/exportadores de arroz; em Kailahun, na Serra Leoa, 40% dos fazendeiros morreram ou fugiram. Conforme o cientista Ilan Goldin, da Universidade de Oxford, Estados Unidos, "Brasil, Índia e Nigéria podem ser atingidos". E será muito difícil, na África, conseguir vacinar 50%, pelo menos, da população em risco. A própria missão da ONU mandada àquele continente acha (Estado, 25/11) que não conseguirá cumprir até o fim do ano a meta de ter sob tratamento 70% dos doentes e enterrados com segurança os mortos, sem contato com parentes e amigos.

O cientista Peter Piot, diretor da London School of Hygiene and Tropical Medicine - que há quase 40 anos, em 1976, primeiro identificou o vírus Ebola, examinando amostra de sangue de uma freira belga que morreu no Zaire (hoje República Democrática do Congo) e fora diagnosticada com febre amarela -, agora pensa (New Scientist, 27/9) que o problema "está longe de terminar". Na época o vírus estava abrigado em morcegos, na floresta; hoje, com o desmatamento e ocupação de áreas, além do costume tradicional das populações locais de abraçar cadáveres e da desconfiança em relação à medicina europeia e norte-americana, o problema espalhou-se. E pode migrar para a Europa, os Estados Unidos e outras partes.

Não é apenas ele. Os Centers for Disease Control and Prevention afirmam que sem um esforço maciço de todos os interessados até 1 milhão de pessoas podem ter Ebola em 2015 na África Ocidental (New Scientist, 27/9). Os casos têm dobrado em números de um mês para outro, embora os epidemiologistas soubessem da gravidade da situação já há algum tempo - mas não conseguiram comover os altos níveis da política.

E tanto não conseguem que governos fecham suas fronteiras para viajantes e fugitivos da África - como estão fazendo a China, a Antártida e outras partes. Os Estados Unidos promoveram o retorno de soldados que haviam mandado e os submeteram a 21 dias de isolamento. De pouco tem adiantado a Cruz Vermelha Internacional advertir que o fechamento de fronteiras não reduzirá o risco de infecções (Estado, 23/10). A previsão da Organização Mundial de Saúde é de que haveria de 5 mil a 10 mil casos novos por semana.

Há esperanças também. O Instituto Butantan, em São Paulo, vai desenvolver um soro contra o vírus, em parceria com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (19/11). A Organização Mundial da Saúde deve testar em janeiro (FP, 22/10) vacinas contra o Ebola. Até ativistas de direitos dos animais protestam contra decisão tomada no Santuário Nacional de Tacugama, na Serra Leoa, onde o risco de contágio levou à separação de casais de animais e ao fechamento para visitas, depois de casos de Ebola.

Texto de Jamil Chade neste jornal (2/2) diz que, na opinião da Organização Mundial da Saúde, entretanto, pode arrefecer o ritmo de proliferação do Ebola, embora as metas não tenham sido atingidas e permaneça a ameaça de crise para os países africanos. O que se espera agora é que se possa chegar a meados de 2015 com "as transmissões zeradas". Serra Leoa continua a ser o país na situação mais difícil, com 20% dos casos em "pessoas que tiveram contato com mortos em enterros".

Impressiona também que a experiência, a informação, continuem a ser minimizadas ou desprezadas por tantos governos, tantas pessoas. Remexendo velhos papéis, o autor destas linhas encontra artigo que publicou em 7 de novembro de 1990, na revista Visão, no qual relatava advertências do cientista Stephen S. Morse, da Universidade Rockefeller, em Nova York, na revista The Sciences. Dizia ele que se os avanços do desmatamento e da fronteira agrícola não forem "acompanhados de rigorosos estudos de impacto ambiental corremos o risco de vir a ser ameaçados nas próximas décadas por um número cada vez maior de perigosos vírus, até aqui confinados a certas regiões ou certas espécies". E entre esses vírus ele já mencionava exatamente o Ebola, "que provocou epidemias com taxas de mortalidade de até 50% no Sudão e 90% no Zaire". Na Argentina havia os casos de febre hemorrágica provocada por um vírus "expulso das pradarias naturais para que se plantasse e exportasse mais milho". Na Bolívia, o vírus Machupo também expulsou camponeses do seu hábitat. Morse já propunha: é preciso juntar o trabalho dos virologistas com o dos biólogos de campo. E criar uma rede de centros de pesquisa e controle sanitário nas áreas tropicais: "Só assim, dispondo de um banco de dados sobre a genética dos vírus e sua epidemiologia, será possível identificar o surgimento de novos vírus e conter sua expansão".

Isso foi registrado em 1990. Quem prestou atenção?

*Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br 

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