Animação nas contas externas

Neste ano o superávit comercial deve chegar a US$ 51 bilhões, num cenário de expansão tanto de exportações quanto de importações

O Estado de S.Paulo

26 Abril 2017 | 03h04

Quem precisar de alguma animação deve ler as projeções do Banco Central (BC) para as contas externas. Neste ano o superávit comercial deve chegar a US$ 51 bilhões, num cenário de expansão tanto de exportações quanto de importações. Se o número for confirmado, será 13,2% maior que o de 2016, já bastante satisfatório. Mesmo assim, o buraco nas transações correntes – síntese das transações com o exterior – crescerá de US$ 23,5 bilhões para US$ 30 bilhões, por causa do aumento previsto para algumas despesas importantes, como as viagens internacionais e a remessa de lucros. Esse déficit continuará perfeitamente administrável, mesmo passando de 1,31% para 1,45% do Produto Interno Bruto (PIB). Mais viagens e mais lucros enviados ao exterior serão sintomas das melhoras previstas para a economia, até agora muito discretas. Algum impulso adicional deverá surgir nos próximos meses, mas com efeitos muito moderados, segundo a maior parte das estimativas. Pela estimativa do BC, o PIB deve crescer 0,5% neste ano.

Inflação em queda e contas externas ajustadas são as principais notícias e avaliações positivas encontradas nos documentos do BC, numa fase de escassez ainda muito sensível de boas novidades. O Brasil atravessou a recessão, desde o fim de 2014, sem grandes sinais de alerta no balanço de pagamentos. Quanto a esse ponto, foi uma crise diferente da maior parte das anteriores. Crise cambial, com comércio deficitário, rombo no balanço geral e escassez de financiamento em moeda estrangeira foram características dominantes nessas fases de grandes dificuldades. Desta vez a história foi diferente. As trocas encolheram, mas principalmente do lado das importações. Mas esse quadro já vem mudando.

Até março, o déficit acumulado em transações correntes, de US$ 4,6 bilhões, foi 39,5% menor que o do primeiro trimestre de 2016. Isso se explica principalmente pelo aumento das exportações de bens e do saldo comercial, com um pulo de US$ 7,8 bilhões para US$ 13,8 bilhões. Em março, houve até um raro superávit em transações correntes, de US$ 1,4 bilhão, possibilitado basicamente por exportações de US$ 6,9 bilhões, valor 58,4% maior que o de fevereiro, na série do BC.

Mas o cenário deve mudar, com a piora dos números nas contas de serviços (viagens e transportes, por exemplo) e de renda primária. Este último conjunto inclui, entre outros itens, entrada e saída de juros, assim como recebimento e pagamento de lucros.

Melhora dos negócios, alguma recuperação de renda e câmbio razoavelmente bem comportado devem estimular as viagens para o exterior. O déficit de viagens deve passar de US$ 8,5 bilhões em 2016 para US$ 12,5 bilhões em 2017, de acordo com o BC. O déficit na movimentação de lucros e dividendos deve saltar de US$ 19,4 bilhões para US$ 26,5 bilhões. O saldo será pior, mas isso será uma indicação de melhora na economia. Na pior fase da crise, algumas empresas pediram socorro às matrizes, em vez de enviar-lhes dinheiro.

O déficit em transações correntes é financiado com recursos contabilizados na conta de capital, a segunda metade do balanço de pagamentos. Investimentos diretos – capital aplicado em empresas – são a melhor forma de cobertura. Esse dinheiro vai diretamente para a atividade empresarial e é muito menos volátil que o capital destinado a operações financeiras, de caráter mais especulativo. Por breve período o País dependeu deste último tipo de financiamento, mas o investimento direto tem superado, em geral, o necessário para cobrir o déficit em transações correntes.

Em 2016, houve ingresso líquido equivalente a 4,39% do PIB, enquanto o déficit foi de 1,31%. O ingresso estimado para este ano, de US$ 75 bilhões, deve corresponder a 3,62% do PIB, muito mais que suficiente para cobrir um buraco estimado em US$ 30 bilhões, ou 1,45% do PIB. Nos últimos 12 meses entraram US$ 85,9 bilhões, enquanto a necessidade ficou em US$ 20,6 bilhões.

Investimento direto é uma aposta nas perspectivas de longo prazo. Algo bom os apostadores devem estar prevendo. Também isso é animador.

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