Antonio Candido (1918-2017)

Grande presença na vida brasileira pela limpidez da conduta ética e pelo empenho em ser justo

*Celso Lafer, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2017 | 05h00

Antonio Candido foi uma das maiores referências intelectuais do Brasil. São de indiscutível envergadura suas contribuições para o entendimento do País, de sua literatura e do fenômeno literário. Foi um notável professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Suas aulas eram uma obra de arte. Generosa foi sua dedicação aos seus muitos alunos, como posso dar testemunho. Transformou-se no correr do tempo de sua vida numa grande presença na vida brasileira pela limpidez de sua conduta ética e pelo empenho em ser justo (uma faceta do seu ser socialista) no trato das pessoas e das situações.

Afonso Arinos, no depoimento que deu para Esboço de Figura, livro que organizei para celebrar os 60 anos de Antonio Candido, qualificou-o como um grande mestre que amadureceu no exercício de sua mestria por “uma serenidade sem frieza, uma tolerância sem concessão, uma firmeza sem rusticidade”.

O estilo da sua prosa, no seu jogo entre ordem e movimento, é uma expressão da acuidade e qualidade de sua visão. Da mesma maneira, num outro registro, o coloquial de sua encantadora conversa sempre bem temperada de “estórias” e reminiscências.

Esboço de Figura abriga notável estudo de Fernando Henrique Cardoso, A fome e a crença (sobre os parceiros do Rio Bonito), que dá a medida da contribuição de Antonio Candido para a ciência social brasileira, a cujo ensino se dedicou nas etapas iniciais de sua carreira na USP. Abriga um igualmente notável estudo de José Guilherme Merquior, O texto como resultado, altamente esclarecedor da teoria e da prática crítica de Antonio Candido.

Formação da Literatura Brasileira (1959) é, como aponta Roberto Schwarz, um livro de sete fôlegos. Resulta da maneira como Antonio Candido, ao examinar a interação da obra com autor e público, explica, com o domínio da literatura comparada e do contraponto Iluminismo/Romantismo, a construção do sistema literário brasileiro e o seu papel na elaboração da consciência nacional no século 19. É uma obra que reúne os três atributos de um clássico, identificados por Norberto Bobbio: 1) é uma interpretação autêntica das preocupações com a formação do Brasil dos anos 50, o tempo histórico de sua redação conclusiva; 2) mantém uma atualidade que instiga sua constante releitura; 3) contém conceitos, categorias e interpretações de que nos continuamos a valer – decorridos quase 50 anos de sua publicação – para apreender o Brasil e a especificidade de sua literatura, de suas obras e seus autores nos momentos decisivos que identificou e estudou.

Iniciação à Literatura Brasileira (1997) é uma primorosa e atualizada síntese das ideias de Formação, que alcança o decênio de 1950 com uma análise do sistema literário consolidado. 

Antonio Candido estudou com flexibilidade metodológica, em Literatura e Sociedade (1965), como o contexto socioeconômico externo se transforma no criativo contexto interno do texto literário. Analisa a multiplicidade dos estímulos à criação literária para apontar como levam à especificidade de cada obra. É a sua “paixão pelo concreto” que dele faz um crítico de vertentes, sempre atento à natureza de cada obra. Textos translúcidos, que parecem reproduzir a realidade como os romances de Zola e de Aloísio de Azevedo, exigem uma aproximação distinta da de textos opacos como os de Kafka e de Buzzati. É o que desvenda no seu paradigmático O Discurso e a Cidade (1993).

O discernimento de matizes de Antonio Candido é fruto do seu senso da complexidade das coisas. Está presente, por exemplo, em Tese e Antítese (1963), em que examina o estilhaçamento do ser e a dimensão fecunda da relação ordem/desordem – um dos seus temas recorrentes – no plano individual do Homo fictus através da análise das obras de Alexandre Dumas pai, Joseph Conrad, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

O Direito à Literatura, palestra dada em 1988 na Faculdade de Direito da USP, em curso organizado pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, hoje recolhida na quarta edição, por ele revista e reorganizada, de Vários Escritos (2004), tem como característica uma reflexão muito própria sobre o nexo entre o Direito e a literatura. Assinala uma confluência entre a sua obra e a sua passagem pelo Direito, como destaquei em meu Antonio Candido e a Faculdade de Direito, inserido no volume dedicado a celebrar os seus 90 anos.

No seu estudo, Antonio Candido, na análise do papel da afirmação histórica dos direitos humanos, fundamenta o direito à fruição generalizada da criação ficcional e artística como um bem incompressível por ser uma necessidade básica. Realça que, “assim como não é possível haver equilíbrio próprio sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem literatura”. A literatura como “o sonho acordado das civilizações” é um fator indispensável de humanização e “confirma o homem na sua humanidade” ao trazer, “como uma atividade sem sossego”, livremente, “o que chamamos o bem e o que chamamos o mal”.

Relembrei algumas facetas do percurso de um grande intelectual que foi um grande homem sem ter tido espaço para realçar a argúcia iluminadora da sua leitura de poesia – a de quem pioneiramente, em 1943, identificou a importância de João Cabral.

“A morte, sempre esperada, é sempre inesperada”, dizia Octavio Paz. Os italianos têm uma aguda fórmula para expressar o luto do falecimento: “È mancato all’affetto dei suoi cari”. É o que tantos estão sentindo. É o que sinto, profundamente, com afeição e admiração, como seu antigo e sempre aluno, amigo e compadre, pois Antonio Candido foi, como disse Guimarães Rosa – na dedicatória de Primeiras Estórias, a ele enviado –, “melhor do que as palavras possíveis da gente”.

*Professor Emérito da USP, membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Paulista de Letras 

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