Aos vencedores, os dinares

Os líderes do Conselho Nacional de Transição (CNT), a organização rebelde líbia reconhecida por cerca de 70 países como legítima detentora do poder, ainda não puseram os pés na capital Trípoli, controlada por milícias locais. Mas, na quinta-feira, o seu presidente, Mustafa Abdel Jalil, e o primeiro-ministro Mahmoud Jibril foram recebidos calorosamente em Paris por 63 chefes de governo, chanceleres e dirigentes de uma dezena de entidades multilaterais, a começar da ONU.

, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Nessa data escolhida para coincidir com o 42.º aniversário do golpe que levou ao poder o coronel Muamar Kadafi, os autointitulados "Amigos da Líbia", encabeçados pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, deram os primeiros passos em apoio à reconstrução do país devastado por meio ano de combates cruentos e à construção de instituições democráticas prometida para muito breve pelo CNT. E ouviram de Jalil o compromisso com uma Líbia "tolerante, conciliadora e obediente à lei". Hoje, mergulha cada vez mais na anarquia.

Para as necessidades líbias mais urgentes, os países ocidentais aprovaram o descongelamento de US$ 15 bilhões dos ativos do regime de Kadafi confiscados na Europa e EUA, cujo total é estimado em até US$ 150 bilhões. Dias antes, aviões britânicos haviam transportado para a Líbia o equivalente em dinares, a moeda nacional, a US$ 211 milhões - em cédulas recém-impressas, ainda com a efígie do ditador. Enquanto ele anunciava de seu esconderijo que incendiaria o país para "eliminar os traidores", Sarkozy e Cameron comunicavam que os bombardeios da Otan, a aliança atlântica, prosseguirão "pelo tempo que for necessário".

Em março, o Conselho de Segurança da ONU, com a abstenção do Brasil e da Alemanha, autorizou a Otan a impôr uma zona de exclusão no espaço aéreo líbio para impedir o massacre com que Kadafi ameaçava a população de Benghazi tomada pelos insurgentes. O perigo era real, mas o engajamento do Ocidente, com o apoio do Catar e da Jordânia, só no papel, foi uma missão humanitária. As quase 8 mil incursões realizadas e a presença de "conselheiros militares" em território líbio destinaram-se a dar condições aos rebeldes de derrubar o tirano de Trípoli. O mandato da Otan expira no fim do mês.

A batalha que já começou, porém, é outra - ou sempre foi, segundo os críticos da ação. Trata-se da disputa pela exploração do petróleo líbio, sem falar dos lucrativos negócios para a restauração da infraestrutura nacional em frangalhos. Antes da explosão da revolta contra a psicocracia de Kadafi, o país extraía 1,6 milhão de barris por dia (b/d). É apenas 2% da produção mundial, mas óleo de alta qualidade. É improvável que o futuro governo, a ser eleito no período de quatro a oito meses, na visão otimista do CNT, rompa os contratos firmados pelo velho regime. Mas a expansão do setor - o potencial é de 4 milhões de b/d - premiará os amigos da nova Líbia.

AbdelJalil Mayouf, um executivo do petróleo líbio que aderiu aos rebeldes, foi explícito. "Não temos problemas com as companhias italianas, francesas e britânicas", disse à agência Reuters. "Mas talvez tenhamos questões políticas com a Rússia, China e Brasil." Só anteontem Moscou reconheceu o CNT. Pequim e Brasília, ainda não. A posição do Itamaraty é esperar a decisão da próxima Assembleia-Geral da ONU sobre quem falará pela Líbia. O Brasil, no que pode ser considerado uma descortesia para os promotores da reunião de Paris, se fez representar apenas pelo embaixador no Egito. A África do Sul, nem isso.

A França desmentiu ter feito um acordo com os líbios para que a gigante nacional do petróleo, a Total, abocanhasse 35% do produto a ser extraído no país, como noticiou o jornal parisiense Libération. Mas o chanceler Alain Juppé não deixou por menos. Disse ser "justo e lógico" que os aliados dos rebeldes sejam recompensados por sua atuação. Afinal, "essa operação custa caro", argumentou. De seu lado, o premiê Cameron garantiu que os interesses britânicos "não ficarão para trás". Aos vencedores, os dinares.

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