Aparecida, 300 anos

Esses três séculos testemunham a devoção do povo católico a Maria, mãe de Jesus

*Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 03h03

No feriado de 12 de outubro deste ano serão comemorados os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nas águas do Rio Paraíba do Sul. A comemoração foi preparada pela Igreja Católica ao longo de um Ano Mariano Nacional, durante o qual várias réplicas da imagem original percorreram as dioceses e comunidades de todo o Brasil. Os três séculos de Nossa Senhora Aparecida testemunham a devoção do povo católico a Maria, mãe de Jesus Cristo e mãe dos cristãos.

Tudo começou em 1717, quando três pescadores, em vez de peixes, tiraram das águas do rio Paraíba do Sul o corpo de uma simples imagem quebrada de Nossa Senhora da Conceição. Logo em seguida, pescaram também a cabeça da imagem e viram nisso um sinal prodigioso, tanto mais porque, após a pesca da imagem, a rede se encheu também de peixes.

Levando para casa a humilde imagem da Virgem da Conceição, “aparecida” em suas redes, os pescadores começaram a honrá-la, como era costume católico. A cor negra da imagem levou a uma fácil empatia dos escravos e das famílias humildes com a Virgem Aparecida. Imagens negras de Maria não são uma raridade na devoção católica e se encontram um pouco por toda parte. Uma capelinha foi erguida e logo começaram a aparecer os primeiros sinais prodigiosos.

O mais impressionante deles foi a inexplicável libertação de um escravo fugido e recapturado. Enquanto era levado em correntes ao patrão para ser castigado, pediu para rezar diante da capelinha da Senhora Aparecida. Diante dos olhos estupefatos dos que o conduziam, as correntes caíram-lhe das mãos e dos pés, sem que mão humana alguma as tivesse tocado.

Como é fácil imaginar, a fama do milagre conseguido pela intercessão da Senhora Aparecida logo se espalhou. Já havia escrito São Bernardo de Claraval, um importante teólogo e doutor da Igreja: jamais se ouviu dizer que tenha ficado sem resposta alguém que recorreu a Maria com fé.

Para a Virgem Aparecida, venerada no vale do Rio Paraíba do Sul, começaram a chegar romarias e procissões, com promessas e muitas súplicas, sobretudo do povo humilde e pobre, carente de tudo, mas cheio de confiança em Deus. Nossa Senhora Aparecida é um sinal da providência, ternura e compaixão de Deus por seu povo.

A responsabilidade eclesiástica pela devoção a Nossa Senhora Aparecida inicialmente esteve com a Diocese do Rio de Janeiro. Em 1745, com a criação da Diocese de São Paulo, a competência passou para o bispo de São Paulo e assim ficou até 1958, quando foi erigida a Diocese de Aparecida. A devoção popular só crescia, chegando até à casa imperial, e a princesa Isabel ofereceu a coroa e o manto característicos da imagem atual.

Nossa Senhora Aparecida foi proclamada padroeira do Brasil. Da pequena capela inicial, passou-se a uma igreja maior e à chamada “basílica velha”. A acolhida dos peregrinos e o cuidado do santuário foram confiados à Congregação dos Missionários Redentoristas.

No final da década de 1940, o cardeal Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, então arcebispo de São Paulo, encomendou ao arquiteto e artista plástico Benedito Calixto o projeto da imponente basílica atual, inaugurada e consagrada pelo papa João Paulo II em 1980, durante sua primeira visita ao Brasil. As obras da basílica ainda estão em fase de conclusão, sobretudo no que diz respeito à sua ornamentação artística, idealizada pelo artista plástico brasileiro Cláudio Pastro, recentemente falecido. A edificação do santuário foi possível graças às ofertas espontâneas dos peregrinos e devotos.

Aparecida recebe todos os anos cerca de 12 milhões de peregrinos, tornando-se um dos lugares de romaria católicos mais importantes do mundo. Para lá se dirigem grupos organizados, mas também famílias e peregrinos solitários, que vão para junto da “Senhora de Aparecida” para agradecer, cumprir promessas, pedir sua intercessão para todo tipo de necessidades e angústias, ou talvez apenas para lhe mostrar seu rosto sofrido, sua alegria e seu olhar... Aparecida tornou-se para muitos como que a casa da mãe, para a qual sempre se gosta de voltar.

Nas últimas décadas, três papas visitaram o santuário de Aparecida: São João Paulo II, em 1980; Bento XVI, em 2007; e Francisco, em 2013. As comemorações do tricentenário contarão com a presença de um legado pontifício, na pessoa do cardeal Giovanni Battista Rè, prefeito emérito da Congregação para os Bispos. Numerosos peregrinos acompanharão os festejos do tricentenário.

Lugares sagrados, santuários e peregrinações não são exclusividade católica nem cristã, mas uma constante no fenômeno religioso em todos os tempos e lugares e em quase todas as religiões. Fazem parte da percepção de que Deus se comunica com o mundo e com o homem e que há pessoas, momentos e lugares por meio dos quais isso acontece de maneira especial.

Os católicos têm a convicção de fé de que Maria desempenha uma missão especial junto aos homens. Ela é a mãe do Jesus Cristo, por nós reconhecido como Filho de Deus Salvador, que a encarregou também de ser a mãe da humanidade. E ela desempenha essa maternidade intercedendo junto a Deus pelos seus filhos, especialmente os mais necessitados.

Faz parte da fé católica a convicção de que Maria está sempre perto de Jesus Cristo; e onde ele está, com a comunidade dos discípulos, ela também ali está, pois é a mãe dos discípulos e participa da Igreja. Nessa relação próxima entre Jesus, Maria e a Igreja, tomam significado o carinho e o devotamento dos cristãos a Maria, sua mãe e intercessora junto a Deus, sempre atenta às necessidades de seus filhos.

Mãe também é educadora e Maria sempre aponta para Jesus Cristo Salvador, recomendando aos filhos que o sigam, como fez nas bodas de Caná, onde Jesus realizou o seu primeiro milagre, transformando água em vinho: fazei tudo o que ele vos disser.

*Cardeal-Arcebispo de São Paulo

 

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