Apetites imoderados

O equivalente na política brasileira ao G-20, o grupo das nações mais ricas do mundo, poderia ser chamado G-2, o duo dos maiores partidos brasileiros, PT e PMDB. A diferença é que os 20 reunidos em Seul tratam de defender os respectivos interesses, ainda sob os efeitos da devastadora crise econômica de 2008/2009. Já os 2, movimentando-se em Brasília, fazem o mesmo sob os efeitos da "prosperidade política" alcançada nas eleições de outubro.

, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2010 | 00h00

Para um observador desavisado, a bonança e a bem-sucedida parceria eleitoral entre eles deveriam induzi-los a moderar os seus apetites de mais poder no novo governo e nas duas Casas do Congresso - os "espaços" de que os políticos falam para disfarçar o indisfarçável. A cooperação, nessa perspectiva, seria mais benéfica para ambos do que a competição. Mas os seus cálculos de conveniência parecem pautar-se por uma racionalidade indecifrável para os mortais comuns.

Diante da mesa farta, o que enxergam é a escassez das cadeiras em comparação com o que consideram seus direitos adquiridos nas urnas. Já se estimou que, para acomodar as pretensões petistas, peemedebistas e dos demais sócios da coalizão vencedora, o total de Ministérios deveria aumentar dos atuais 37 para qualquer coisa perto de 50.

As corriolas rivais não se cansam de plantar numa imprensa, por sua vez, faminta de boatos notícias duvidosas sobre a ascensão dos seus candidatos e o deslizamento dos concorrentes no pau de sebo pelas melhores vagas. Em um mesmo dia pode-se ler que o PT não quer nem ouvir falar da ida do ex-ministro Antonio Palocci para a Casa Civil da presidente Dilma, porque lhe ofereceria resistência, e que o PT batalha não só por isso, mas também para que, "em dobradinha" com ele, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, ocupe uma robustecida Secretaria-Geral da Presidência. Pouco lhes importa se o público der a esses factoides a desatenção que merecem.

Em momento algum os partidos se dão ao trabalho de justificar as suas ambições com argumentos substantivos. Quando, por exemplo, o PT faz saber que aspira a mais 2 Ministérios, além dos atuais 17 - no caso, Saúde e Comunicações, em mãos do PMDB -, nem se digna a fundamentar a sua demanda com a alegação de que tem novas e avançadas ideias para esses setores e nomes capazes de implementá-los. Já o PMDB é ao menos engraçado. Diz que a Saúde não faz parte do seu patrimônio porque o seu titular, embora filiado à legenda, foi uma escolha pessoal do presidente Lula. Portanto, merece mais de Dilma.

Bem pensadas as coisas, porém, não há razão para cobrar dos partidos a invocação de programas de trabalho depois de uma campanha que primou pela ausência disso, permanecendo no campo das generalidades as mais crassas, confeccionadas, além de tudo, por especialistas em propaganda, não em questões de governo.

Pressionado pelos companheiros - os de carteirinha e os de viagem -, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, saiu-se com uma tremenda obviedade. "Nenhum Ministério é propriedade de ninguém" (sic), avisou. "A presidente eleita é que vai decidir se continuará a ocupação dos espaços nos moldes do atual governo ou se vai propor modificações." Mesmo porque, poderia ter dito, não há critérios objetivos para medir a contribuição de cada partido para a vitória de Dilma. Nenhuma, de resto, comparável à de Lula.

No Congresso, as coisas seriam mais simples - em tese. Salvo surpresas pouco prováveis, assumem o comando da Câmara e do Senado as agremiações com as maiores bancadas, PT e PMDB, respectivamente. Só que esse último quer o melhor dos dois mundos: revezar-se com o aliado na presidência da Câmara e passar os 4 anos inteiros da próxima legislatura conduzindo o Senado - para começar, na pessoa do octogenário José Sarney. O PMDB alega que isso é do regimento da Casa. Se assim é - e se o assunto fosse tratado com seriedade -, aplique-se a norma, por analogia, à Câmara. Ou mude-se a norma para aplicar ao Senado o esquema da alternância.

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