Aposta arriscada

Depois das dificuldades no abastecimento de água da Grande São Paulo em 2014 e 2015, consequência da pior seca dos últimos 80 anos, que quase levou a um racionamento, era de esperar que, diante da melhora da situação, o governo paulista se mostrasse mais cauteloso. Em vez disso, ele parece disposto a fazer uma aposta arriscada com relação ao futuro desse setor, particularmente sensível porque não depende apenas da ação dos governantes, por mais esforçados e eficientes que sejam, mas também de fatores climáticos sobre os quais não têm controle.

O Estado de S. Paulo

02 Abril 2016 | 03h00

Primeiro, o governador Geraldo Alckmin, entusiasmado com a melhora da situação dos reservatórios – pela ação conjugada de fortes chuvas, de importante economia de água por parte da população, com estímulos do governo, e de obras em andamento para melhorar o abastecimento –, resolveu decretar que a “questão da água” estava resolvida e que a região poderá suportar quatro ou cinco anos de seca. Uma pressa que especialistas respeitados não deixaram de criticar.

Menos de três semanas depois, foi a vez de a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) seguir na mesma direção, anunciando sua intenção de cancelar, a partir do dia 1.º de maio, o desconto para quem economiza água e a multa para os que a consomem em excesso. Pedido nesse sentido foi por ela encaminhado à Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp), a quem cabe decidir a questão. É bom lembrar que em dezembro passado a agência autorizou a Sabesp a manter o desconto e a multa até o fim de 2016, embora com algumas mudanças, numa clara indicação de que a prudência era recomendável.

O abandono da política de incentivo à redução do consumo de água, por meio de uma conjugação de desconto e multa, conforme o caso, tem dois aspectos principais a considerar. Em primeiro lugar, ela mostrou à população que é perfeitamente possível economizar água, sem maiores sacrifícios. Segundo a Sabesp, a economia chegou a cerca de 25% em relação ao período anterior à crise. Uma conquista da maior importância, mas ainda não devidamente consolidada, e que por isso pode ser perdida. O que será perigoso, porque a água tende a ser cada vez mais um bem raro e, portanto, de custo elevado.

O que deve ter pesado na decisão da Sabesp é a perda acarretada pelo desconto dado a quem se dispôs a economizar água, que foi da ordem de R$ 937,9 milhões, soma bem maior do que o que se ganhou com multa de até 50% aplicada a quem gastou demais (R$ 549,3 milhões). De acordo com o balanço da companhia, seu lucro caiu 40,6% em 2015 em relação a 2014. Mas o ganho a ser obtido com o fim dos incentivos pode ser facilmente perdido em meio a outra crise de abastecimento, uma hipótese plausível, como advertem vários especialistas.

Esse é o segundo aspecto da questão a se levar em conta. Segundo Ivanildo Hespanhol, professor de Hidrologia da USP, a medida anunciada pela Sabesp é prematura, porque a crise hídrica ainda não foi superada. Como março marca o fim das chuvas, “apesar de estarmos com os reservatórios mais ou menos em condições, daqui para a frente ([ITALIC]a situação[/ITALIC]) pode complicar”. Até porque, a seu ver, as obras em andamento não garantem a segurança do sistema de abastecimento caso volte a ocorrer uma seca prolongada.

Outro especialista em hidrologia, Antônio Carlos Zuffo, da Unicamp, é ainda mais incisivo: “Se a gente relaxar agora, o volume do Sistema Cantareira vai novamente cair. O cenário do próximo ano e meio é de chuvas abaixo da média. Então, nós podemos passar pelos mesmos problemas de desabastecimento”.

Essas são opiniões de peso que não devem ser ignoradas. As crises sempre renovam a velha e sábia advertência de que mais vale prevenir do que remediar. Resta torcer para que a Arsesp, que terá a última palavra a respeito da pretensão da Sabesp, não se esqueça disso.

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