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Argentina em xeque

O Estado de S.Paulo

18 Junho 2014 | 02h 06

Treze anos depois de quebrar e de entrar em calote, a Argentina continua encrencada com a dívida externa e sua economia afunda em crise, com inflação elevada, produção estagnada, baixo poder de competição e escassez de moeda estrangeira. A situação se agravou na segunda-feira com mais uma derrota judicial nos Estados Unidos. Nesse dia, a Corte Suprema rejeitou a apelação contra uma sentença favorável a um grupo de credores de US$ 1,3 bilhão - uma pequena parte do calote anunciado no fim de 2001. A maior parte dessa dívida foi reestruturada em 2005 e 2010, mas alguns detentores de títulos públicos argentinos preferiram ficar fora da negociação e continuar pressionando o governo pelo pagamento. São os "holdouts".

Em pronunciamento pela TV, a presidente Cristina Kirchner chamou de extorsão a cobrança apoiada pelo Judiciário americano e apontou um possível desdobramento da decisão: se pagar a alguns daqueles credores, outros em situação semelhante poderão exigir o mesmo tratamento. Nesse caso, o desembolso total poderia chegar a cerca de US$ 15 bilhões. Além de impossível, seria um absurdo, segundo a presidente, um país destinar mais de metade de suas reservas ao pagamento de dívidas.

Em 6 de junho o Banco Central da Argentina dispunha de US$ 28,62 bilhões de reservas, segundo informação exibida em seu site nessa terça-feira. No começo do ano o país dispunha de cerca de US$ 30 bilhões em moeda estrangeira. No ano anterior, a Argentina havia perdido cerca de US$ 10 bilhões.

A escassez de reservas tem assombrado o governo argentino desde antes da crise iniciada em 2008, mas o problema agravou-se a partir daí. Como resposta, as autoridades ampliaram o protecionismo e multiplicaram as medidas burocráticas de controle de importações. O país mais prejudicado foi o Brasil. O ingresso de produtos brasileiros no mercado argentino foi muito dificultado. Em alguns períodos chegaram a formar-se enormes filas de caminhões na fronteira.

Esse protecionismo foi sempre aceito sem muita resistência em Brasília, embora representantes do governo brasileiro tenham encenado, em raros momentos, alguns protestos e pressões. Mas a política da Casa Rosada prevaleceu sempre, com mudanças pouco relevantes, e continua prevalecendo.

Na recente renovação do acordo automotivo, velha aberração do comércio bilateral, os negociadores brasileiros aceitaram basicamente as condições ditadas pelo outro lado. Conseguiram como contrapartida a promessa de menores entraves nos demais fluxos comerciais. A exigência, tudo indica, foi mais para constar. Nada, por enquanto, indica uma redução significativa dos obstáculos.

A boa disposição do Brasil como importador e as barreiras protecionistas impediram nos últimos anos um desastre maior nas contas externas do vizinho. A receita comercial é especialmente importante para a Argentina, por causa do limitado acesso ao mercado financeiro internacional, mas, ainda assim, o governo em mais de uma ocasião limitou as exportações de alimentos.

Essas tentativas de conter a alta de preços no mercado interno foram sempre frustradas. A saída encontrada pelas autoridades foi falsificar os índices de inflação. Em pouco tempo todas as contas oficiais produzidas em Buenos Aires ficaram sob suspeita. Depois de muita pressão, o governo começou, neste ano, a produzir indicadores de preços mais compatíveis com os padrões internacionais mais confiáveis.

Durante anos, alguns economistas brasileiros apontaram o calote argentino como ato corajoso e sábio e chegaram a recomendá-lo como exemplo para o Brasil. Jamais argumentaram seriamente a favor dessa ideia. Parecem nunca ter notado as trapalhadas cometidas na Casa Rosada, nos últimos 13 anos, nem a inflação desatada, a falsificação dos dados e a perda progressiva, mas indisfarçável, da eficiência econômica e do poder de competição. Na melhor hipótese, o calote poderia ter criado uma folga para a Argentina investir e ganhar produtividade. Nem para isso serviu. Só resultou em enorme perda de tempo e de oportunidades.

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