Armadilha da corrupção

O prefeito Fernando Haddad e os partidos que o apoiam, a começar pelo PT, estão dando claros sinais de que vão promover o loteamento político das Subprefeituras, indiferentes aos graves riscos que isso representa. Seduzidos pelas vantagens imediatas que isso pode lhes dar - tanto fortalecendo redutos eleitorais de aliados como facilitando a aprovação de matérias de seu interesse na Câmara Municipal -, eles fecham os olhos à experiência recente que mostra que esse toma lá dá cá acaba mal.

O Estado de S.Paulo

09 Março 2014 | 02h08

Nesse terreno, Haddad havia começado bem, pois logo depois de sua posse criticou a indicação de políticos ou seus apadrinhados para as 31 Subprefeituras, cargos para os quais escolheu técnicos. Aceitou que, no máximo, os partidos que o apoiam indicassem chefes de gabinete para aquelas unidades administrativas. Essa prudente determinação, que correspondia à necessidade tanto de eficiência como de moralização da administração pública, não durou muito.

Pouco mais de um ano depois, o prefeito está cedendo à pressão do PT e de outros partidos de sua base de apoio, que desde o início do governo vêm reclamando maior espaço na administração, o que significa tirar os técnicos e colocar políticos nos postos de comando, os quais em seguida nomeiam seus apadrinhados para os cargos subalternos. Em resumo, apesar do discurso moralista do PT e de seus aliados ditos de esquerda - sempre prontos a apontar o dedo acusador para seus adversários -, trata-se pura e simplesmente de repetir as velhas práticas fisiológicas que dominam o setor público.

Haddad começou a trilhar esse mau caminho em grande estilo, nomeando para a Subprefeitura da Sé - a mais importante, com o maior orçamento, cuja área inclui desde a Avenida Paulista até ruas de comércio popular como a 25 de Março - o deputado estadual Alcides Amazonas, do PC do B. Deve valer mesmo a pena comandar essa que, segundo suas palavras, é "a capital da capital", pois para isso ele vai desistir de seu mandato - pedirá licença e não concorrerá às próximas eleições.

Na mesma linha, o prefeito nomeou interinamente Valter Antônio da Rocha, ex-secretário de Esportes de Gilberto Kassab (PSD), para a Subprefeitura da Mooca. Recorde-se de que Rocha constava da lista de diretores da Dersa condenados pela Justiça em 2007 a devolver R$ 295 mil pela contratação de um escritório de advocacia, sem licitação, para prestar serviços referentes à construção do Rodoanel. Até o dia 28, ele será substituído por um integrante do PT ou de outro partido aliado. A essas deverão se seguir nomeações de outros políticos ou pessoas por eles indicadas para as demais Subprefeituras.

Dirigentes do PT, que só criticam essa prática quando feita pelos seus adversários, tentam dar-lhe uma roupagem diferente, como faz Alfredo Alves Cavalcanti, o Alfredinho, líder do partido na Câmara Municipal. Para ele, são "naturais" essas mudanças nas Subprefeituras e, por isso, o PT reivindica o comando de mais da metade delas, para as quais indicou chefes de gabinete. O presidente do diretório municipal do PT, o vereador Paulo Fiorilo, também nega que essas nomeações constituam loteamento político.

Mas, como a peneira não consegue esconder o sol, por maior que seja o esforço dos espertos, é isso mesmo que está sendo feito. É um comportamento irresponsável, que nenhum artifício conseguirá disfarçar e pelo qual, mais uma vez, São Paulo poderá pagar caro. O escândalo da Máfia dos Fiscais, um dos maiores da administração pública brasileira, que estourou no governo Celso Pitta, em fins de 1998, teve origem no loteamento das então Administrações Regionais, antecessoras das Subprefeituras, entre os vereadores em troca de seu apoio aos projetos do Executivo. Movimentou R$ 436 milhões em propinas, levou à cassação de dois vereadores e manchou e destruiu a reputação do governo Pitta.

Haddad que se previna. Como esse processo de trocas de favores engendra fatalmente a corrupção, se o prefeito se deixar envolver por ele, será praticamente impossível controlá-lo, como ensina a experiência. Terá ele força e vontade para evitar essa armadilha, na qual a cidade cairá junto?

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