As atrocidades de Assad

Desde a repressão aos primeiros protestos populares contra o regime do ditador sírio Bashar Assad, há 15 meses, cada massacre de civis é recebido no Ocidente com ardentes palavras de condenação e a infundada expectativa de que o autocrata de Damasco chegou ao limite de sua ferocidade. Nesse meio tempo, os Estados Unidos e a União Europeia também impuseram diversas rodadas de sanções à Síria - sem resultados palpáveis. Além disso, por iniciativa da Liga Árabe, a ONU aprovou em março último um plano de seis pontos para sustar a violência no país, enviou cerca de 300 observadores internacionais para monitorar o cessar-fogo que deveria começar em 12 de abril e nomeou o autor do plano, o ex-secretário-geral do organismo Kofi Annan, seu mediador oficial.

O Estado de S.Paulo

30 Maio 2012 | 03h07

O efeito da iniciativa é zero. Na sexta-feira passada, três dias antes de um agendado encontro entre o diplomata e o ditador, o Exército respondeu com artilharia pesada a uma manifestação de moradores de um lugarejo chamado Taldou, vizinho a Houla, na província de Hama, no oeste do país. A maioria dos habitantes da área é sunita, com bolsões de seguidores da seita alauíta, a mesma do clã Assad. O ataque, praticamente nas barbas dos enviados da ONU, deixou 108 mortos, entre os quais 49 crianças e 34 mulheres. Mas, diferentemente do que se presumiu, não foram os tanques os principais responsáveis pelo ultraje. Uma investigação in loco, respaldada por entidades sírias de defesa dos direitos humanos e depoimentos de testemunhas, revelou um quadro de horror reminiscente das piores atrocidades cometidas pelas forças sérvias na Bósnia, há 20 anos.

Trazidos das proximidades, os shabihas, as selvagens milícias leais a Assad, perpetraram um pogrom em Taldou. Indo de casa em casa, executaram famílias inteiras com tiros à queima-roupa e punhaladas, numa operação em duas etapas, que durou cerca de nove horas. Taldou abriga famílias de numerosos membros do rebelde Exército Livre da Síria. Ontem, em Genebra, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos informou que menos de 20 das 108 vítimas foram mortas por disparos de artilharia. Com macabro cinismo, as autoridades de Damasco disseram que isso provava que os assassinos eram "terroristas", ou militantes da Al-Qaeda, a soldo de inimigos da Síria. É a versão a que a ditadura se aferra: o país é vítima de uma ofensiva de fundamentalistas islâmicos, e o que o governo faz é exercer o seu legítimo direito à autodefesa.

No dia seguinte à chacina, o Conselho de Segurança da ONU condenou "nos termos mais duros possíveis" a matança, criticou o uso de blindados contra civis - mas se absteve de apontar culpados pelo massacre. Do contrário, a Rússia rejeitaria o texto, como ameaça fazer ao longo da crise, impedindo a aprovação de sanções multilaterais contra Assad. A China, outro membro do colegiado com poder de veto, tem a mesma posição. A Rússia é a principal provedora de armas da Síria. (O Irã, por sua vez, mantém no país efetivos da Guarda Revolucionária.) Moscou sustenta Damasco desde o tempo da União Soviética, quando o ditador era Hafez Assad, pai do atual. O apoio russo limita as opções ocidentais na Síria - entre as quais não se inclui um replay do decisivo apoio militar à insurgência contra o ditador líbio Muamar Kadafi.

Se fosse possível construir uma nova realidade política na Síria que preservasse os interesses russos, o Kremlin dificilmente se objetaria à remoção de Assad. Isso está implícito, por exemplo, quando o chanceler russo Sergei Lavrov afirma que a prioridade do seu governo é assegurar o estrito cumprimento do plano de paz de Kofi Annan. Levado ao pé da letra, acabará com a tirania. O que a Rússia mais teme, depois de uma teórica intervenção da Otan, é a desintegração da Síria, numa reedição da guerra civil no Líbano de 1975 a 1990. Com as devidas garantias, Moscou poderia aceitar a "variante iemenita" - o esquema apoiado pelos Estados Unidos que permitiu no ano passado a saída do Iêmen do ditador Ali Abdullah Saleh, preservando os compromissos e as bases do seu regime. Mas o conflito na Síria é muito mais complexo.

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