As conquistas de 2017

Um raro consenso nacional se explicitou: chega de práticas corruptas!

Ricardo Vélez Rodríguez*, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 03h00

Todo fim de ano é a oportunidade para dar uma olhada pelo retrovisor da História. Quais foram os fatos marcantes do ano que ora finda? Esse exercício é útil para pessoas e para grupos sociais. Lembro-me dos meus tempos de estudos na Universidad Javeriana, dirigida pelos jesuítas, em Bogotá, do exercício que os religiosos faziam: exame de consciência duas vezes por dia, para ver como tinha sido o desempenho em termos de observância das regras da comunidade. Os alunos civis achávamos engraçado aquele exercício de recordação, feito pelos religiosos em pequenos grupos. Bom, essa prática proposta por um militar que se tornou santo da Igreja, Ignácio de Loyola, serve também para os grupos sociais. Quais foram os fatos marcantes em 2017 para a nossa história como grupo social organizado?

Lembrarei os fatos que são significativos para a nossa moral social, a qual corresponde àquele conjunto de princípios que devem pautar a vida da comunidade política e hoje são sedimentados consensualmente. O que se tornou consenso no ano que termina? O grande consenso gira em torno da não aceitação da corrupção como método de governo e de gestão de empresas. Se alguma lição tiramos da Operação Lava Jato, foi essa. Chega de práticas corruptas! Um raro consenso nacional se explicitou. O Brasil não será mais o mesmo após esse princípio ter-se instalado por toda parte, nas redes sociais, na imprensa, nas igrejas, nos clubes de recreação, nos bate-papos informais. Cansamo-nos da corrupção. E só será eleito, daqui para a frente, quem não tiver sido contaminado pelo desagregador vírus.

Chegamos a tal consenso em face da inviabilidade que a corrupção criou para a gestão da coisa pública e das empresas. O caso extremo é hoje o Rio de Janeiro. A vida tornou-se difícil na antiga Cidade Maravilhosa, em decorrência do afrouxamento dos controles morais contra a corrupção, que sugou benefícios previdenciários, salários de servidores, realização de urgentes projetos urbanísticos, verbas para a saúde pública, para a educação e para a segurança. No turbilhão do despautério, terminaram indo para a cadeia figuras representativas da cúpula política do Estado: ex-governadores, magistrados de Tribunal de Contas, figuras pertencentes à cúpula de Legislativo estadual, etc. No vácuo das práticas corruptas instalou-se o domínio dos violentos (que assassinam policiais quase diariamente) e o medo da parte dos cidadãos. O Rio apresenta hoje para o Brasil o paradigma do que seria uma sociedade em guerra, aquela, como a desenhada pelo autor de O Leviatã (1651), Thomas Hobbes, em que todos os cidadãos têm medo da morte violenta e em que não conseguem desfrutar o que possuem por medo de que lhes seja tirado de forma brutal.

O segundo grande consenso que se gerou no Brasil no ano que finda foi a desvalorização que teve o populismo em todas as suas manifestações. O líder populista, lembrava o professor Taguieff, na França, é um demagogo cínico. Demagogo porque a sua liderança surge à sombra da deformação da democracia. Cínico porque a destrói usando, exclusivamente, em benefício próprio, as instituições democráticas. O populista é um anarquista que quer impor o domínio de si mesmo, sem intermediação institucional. Por isso se permite um linguajar descosturado, em função das conveniências e das emoções do momento. Lula é o populista por excelência. Os raquíticos comícios que o falante ex-líder sindical tenta organizar pelo Brasil afora são a prova do cansaço do honorável público com esse espetáculo de mediocridade infinita. 

O mal não é novo. Os grandes filósofos do período clássico da Grécia Antiga, Sócrates, Platão e Aristóteles, reagiram contra o populismo dos sofistas, que levaram Atenas à derrota, após o período de excelência conhecido como “o século de ouro de Péricles”.

O terceiro grande consenso que parece ter-se sedimentado na alma dos brasileiros é o do fim do messianismo político. Lula, do alto do seu inegável carisma e da falta de escrúpulos que beira a psicose, conseguiu a façanha de fazer que todo mundo passasse a desconfiar dos “salvadores da pátria”. Paradoxalmente, do seio da Operação Lava Jato surgiu a faísca de messianismo oportunamente definida por conhecido sociólogo como “conspiração de tenentes de toga”, ao ensejo das pretensões salvadoras do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot e da tentativa de criminalização da atividade política pelos jovens “puros” do Ministério Público. O ex-procurador tentou nos vender a figura de “salvador da pátria” utilizando para isso a instituição que chefiava como se fosse propriedade particular. Terminou metendo os pés pelas mãos na macondiana “delação premiada” de conhecidos empresários da patifaria, afoitamente costurada nas sombras para abater o atual presidente da República e galgar degraus perante a opinião pública e as viúvas da festa lulopetista.

O quarto grande consenso foi a consciência, que se vai enraizando em políticos responsáveis e em segmentos cada vez mais expressivos da sociedade, de que é necessário dar vida nova à representação política e aos partidos, sem os quais não será possível, em pleno século 21, dar voz aos vários grupos que integram a sociedade. O aperfeiçoamento da representação, essa é a grande tarefa que temos pela frente. A adoção de mecanismos que a valorizem, como o voto distrital misto, é o caminho que, se adotado, levará a que se reconfigure a nossa democracia.

Em face desses consensos, acho que ganhamos o ano. 2018 apresenta-se como terreno fértil que frutificará em reformas democráticas (notadamente a previdenciária) e de desenvolvimento pacífico.

*COORDENADOR DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UFJF, PROFESSOR EMÉRITO DA ECEME, É DOCENTE DA UNIVERSIDADE POSITIVO, LONDRINA E-MAIL: RIVE2001@GMAIL.CO

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