As dificuldades da USP

Um dia depois de a Universidade de São Paulo (USP) ter divulgado a dramática situação financeira em que se encontra, prevendo encerrar 2016 com um déficit de R$ 868 milhões, cerca de 60% a mais do que o previsto no começo do ano, servidores da instituição mais uma vez fecharam o principal portão da Cidade Universitária, para protestar contra o corte do ponto e o desconto dos dias parados dos funcionários que estão em greve há quase dois meses. Com 15 mil integrantes, a categoria reivindica um reajuste de 12,34% e a ampliação do quadro de funcionários técnico-administrativos, apesar de a USP já estar enfrentando dificuldades até para arcar com o montante atual da folha de pagamento.

O Estado de S. Paulo

08 Julho 2016 | 03h00

Há cerca de um mês, os grevistas já haviam fechado todas as portarias da Cidade Universitária, o que obrigou a procuradoria da USP a entrar com uma ação judicial para que outras interdições não fossem promovidas, sob pena de multa. Mesmo assim, dias depois, a pretexto de exigir a adoção de cotas raciais, estudantes e integrantes de movimentos sociais tentaram ocupar o prédio da Reitoria, tendo sido dispersados pela Polícia Militar, que precisou usar bombas de efeito moral. Estudantes e servidores também criticam o fechamento de creches para seus filhos e a terceirização dos restaurantes universitários. Reclamam da falta de vagas nos alojamentos estudantis. E ainda acusam os dirigentes da USP de “desmontar” a instituição e de se recusarem a “negociar”.

A crise financeira da maior instituição pública de ensino superior do País decorre de vários fatores. Um deles é a crise econômica, que levou à queda da arrecadação do ICMS, de cuja receita a USP, a Unicamp e a Unesp têm direito a 9,57%. Outro fator é a falta de uma política de recursos humanos sensata e realista, uma vez que muitos servidores ganham bem mais do que receberiam se estivessem na iniciativa privada e a distribuição de pessoal por unidades não é feita com critérios claros e transparentes.

Além disso, enquanto os repasses do Estado despencam, por causa da queda da arrecadação do ICMS, cresce a proporção de alunos de baixa renda e oriundos da rede pública de ensino básico que ingressam nos cursos de graduação, o que os leva a reivindicar a ampliação de programas de permanência na instituição. Contudo, por falta de recursos, a USP não investiu em novos alojamentos estudantis, oferecendo há cinco anos as mesmas 2.703 vagas. E também congelou o valor do auxílio-moradia em R$ 400, que hoje é pago a quase 4 mil beneficiários.

Com isso, muitos estudantes pobres acabam enfrentando dificuldades para prosseguir nos estudos, o que se reflete nos índices de repetência e de evasão, fazendo com que a USP incorra em desperdício. Dito de outro modo, não faz sentido adotar critérios de inclusão social nos exames vestibulares sem, ao mesmo tempo, implementar políticas assistenciais. “É preciso ampliar a inclusão, mas também o suporte aos alunos pobres e oriundos da rede pública. Caso contrário, a entrada deles é uma armadilha. Você o traz para a USP, mas não dá chance para que ele possa progredir”, afirma Ocimar Alavarse, que é especialista em avaliação escolar e professor da Faculdade de Educação da USP.

Com cerca de 59 mil alunos de graduação, 30 mil alunos de pós-graduação, 5,8 mil professores e 15 mil servidores técnicos e administrativos em 11 campi, a USP enfrenta um dos momentos mais difíceis de sua história. Além do descompasso entre a adoção de medidas de inclusão no acesso e ausência de assistência aos estudantes carentes, a falta de recursos a levou a ampliar a proporção de alunos por professor, o que pode comprometer a qualidade de seus cursos. Enquanto isso, os setores mais radicais do corpo discente e administrativo continuam fazendo exigências irrealistas, promovendo greves inconsequentes e recorrendo a ocupações e bloqueios para interditar espaços públicos com o objetivo de impor, de modo ilegal e violento, a agenda de corporações e micropartidos radicais sem representatividade eleitoral.

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