As entranhas do chavismo

Como era previsível, os filhos de Chávez, na ausência do Comandante, estão se devorando. Uma gravação divulgada pela oposição da Venezuela mostra que o esfarelamento da "revolução bolivariana" não se limita à incapacidade administrativa do presidente Nicolás Maduro e à corrupção galopante. Trata-se apenas de uma fração de informação, mas a partir dela já é possível ter uma ideia clara das forças em confronto e do que elas são capazes.

O Estado de S.Paulo

22 Maio 2013 | 02h02

Segundo a oposição, a gravação é de uma conversa entre o apresentador de TV Mario Silva, que é um dos principais porta-vozes do chavismo, e um dos chefes do G2, o serviço de inteligência cubana, identificado como Aramis Palacios - tenente-coronel que estaria na Venezuela a serviço do ditador de Cuba, Raúl Castro, para orientar o governo de Maduro. No diálogo, Silva diz que está com um "temor visceral" de que o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, esteja preparando um golpe de Estado.

A disputa de poder entre Maduro e Cabello não é um fato novo. Os dois passaram todo o período da agonia de Hugo Chávez jurando lealdade ao caudilho e unidade absoluta nas fileiras chavistas. Esse discurso, ao que parece, não sobreviveu a Chávez. Escolhido pelo Comandante como seu sucessor, Maduro é o "homem de Havana", colocado na cadeira presidencial para preservar a relação que tem garantido o precioso financiamento venezuelano ao regime cubano. Cabello, por sua vez, é visto como um empecilho pelos irmãos Castro. Militar que participou da fracassada tentativa de golpe liderada por Chávez em 1992, Cabello seria seu sucessor natural na presidência - era, afinal, o que previa a Constituição venezuelana -, mas acabou preterido porque Cuba o teria vetado.

Cabello controla o Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), onde é conhecido como "novo Stalin", e tem influência sobre uma parte significativa do aparato de segurança do regime, razão pela qual é visto há tempos como uma ameaça de desestabilização graças a sua sede de poder e de dinheiro. Empresário, Cabello tornou-se um dos homens mais ricos da Venezuela e seu nome é frequentemente relacionado a casos de corrupção e ao narcotráfico.

Na gravação revelada pela oposição, Mario Silva diz ao emissário cubano que "a única forma de deter Cabello é mostrar que ele é um corrupto e que existe uma prova confiável de que o Comandante sabia disso". Segundo o apresentador, Maduro tem de ser alertado para o perigo de perder o controle das Forças Armadas para Cabello, "o que poderia levar a um golpe de Estado". E chama a atenção para o risco de divisões dentro do Exército.

A gravação surge num momento de especial fragilidade de Maduro, em que a Venezuela enfrenta uma grave crise de desabastecimento, que começa a corroer o patrimônio carismático que Chávez legou. Por conta disso, a reação de Maduro à divulgação do áudio foi aparecer em diversos eventos ao lado de militares, para tentar mostrar quem é que manda. Enquanto isso, Cabello reafirmou sua "fidelidade absoluta" ao governo, mas o PSUV ficou em silêncio e alguns governistas timidamente se limitaram a questionar a autenticidade da gravação. Já o apresentador Mario Silva, que não é conhecido pela moderação, preferiu apelar às teorias da conspiração, ao dizer que o diálogo foi uma "boa montagem" feita pelos "sionistas". Em seguida, anunciou que está deixando seu programa por "motivos de saúde".

Dadas as circunstâncias, a oposição pode ter sido usada como mero veículo para a exposição pública das entranhas do chavismo e das manobras de Cabello, pois trata-se de algo que serve a Maduro e ao consórcio que tenta sustentá-lo no poder. Na gravação, Mario Silva chega a dizer que Cabello está se aproveitando da crise econômica, por meio de empresas de fachada e evasão de divisas, para enriquecer ainda mais. "Estamos metidos em um mar de m..., compadre", disse o apresentador a seu amigo cubano, resumindo, com rara franqueza, a situação venezuelana.

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