As Malvinas falam

Referendo realizado nos dias 10 e 11 de março nas Malvinas retrata de modo inapelável de que lado estão os moradores das ilhas na querela entre Argentina e Grã-Bretanha. Dos 1.518 eleitores, 1.481 foram às urnas para dizer se queriam permanecer sob domínio britânico. Nada menos que 99,8% responderam "sim", uma maioria tão grande que nem a presidente Cristina Kirchner, com sua pitoresca noção de democracia, seria capaz de contestar.

O Estado de S.Paulo

14 Março 2013 | 04h23

Assim, seguindo a tradição de respeitar a autodeterminação dos povos, inscrita no direito internacional após a 2.ª Guerra Mundial, a Argentina talvez devesse desistir de sua obsessão pelas ilhotas. Mas não é isso o que irá acontecer, porque as "Malvinas argentinas" têm sido, desde a última ditadura militar, o fogo que aquece o nacionalismo cuja utilidade é desviar a atenção dos reais problemas do país. E na Argentina de Cristina problemas não faltam.

Os argentinos sustentam desde 1833 que as Malvinas lhes pertencem. Mas os britânicos, que puseram os pés nas ilhas pela primeira vez em 1690 e as chamam de Falklands, não só discordam, como mostraram firme disposição para defender sua soberania sobre o arquipélago. Em 1982, quando os generais argentinos empreenderam sua última loucura, a "aventura militar" para tomar as Malvinas dos britânicos, a então primeira-ministra Margareth Thatcher despachou suas tropas e recuperou as ilhas. Uma das baixas do conflito foi o regime militar argentino, que expirou.

A controvérsia voltou a ficar acirrada em 2009, depois que os britânicos começaram a procurar petróleo na região. Buenos Aires acusou Londres de "militarizar" as Malvinas, que ficam a 500 km da costa argentina, e fechou o trânsito entre a Argentina e as ilhas.

O argumento da Argentina, desde sempre, é que a questão da soberania das Malvinas é sobre o território, e não sobre a população - como se fosse possível dissociar uma coisa da outra. Sucessivos governos argentinos, sempre com apoio da oposição, sustentam que a população das Malvinas foi "implantada" pelos britânicos em 1833 e que os atuais moradores não são propriamente um "povo", mas uma representação do poder colonial - portanto, sem direito à autodeterminação. Mas os kelpers "implantados" já deitaram raízes há muito tempo, e seria um grande exercício de abstração imaginar que os 2.563 moradores atuais aceitariam fazer as malas e deixar o território que há quase dois séculos faz parte de sua história ou, então, submeter-se ao governo argentino. Ademais, é bom lembrar que a renda per capita anual dos kelpers é de US$ 32 mil, três vezes maior que a dos argentinos, o que explica o entusiasmo com que os eleitores escolheram a soberania britânica.

A Argentina se recusa a negociar com os moradores e exige que o diálogo se dê somente com Londres. De fato, como os kelpers agora formalizaram sua lealdade à Coroa britânica, não há mais necessidade de incluí-los nas conversas. O problema é que o primeiro-ministro David Cameron reafirmou que a questão está encerrada. Para ele, o resultado do referendo foi "o mais eloquente possível" e a Argentina deve respeitar a vontade dos kelpers. Além disso, as resoluções da ONU sobre o tema, embora considerem que se trata de um caso de descolonização, como qualificam os argentinos, demandam que os interesses da população das Malvinas sejam levados em conta nas negociações. E eles se fizeram ouvir.

O governo argentino considera a realização do referendo um ato de má-fé, uma encenação para justificar o desafio britânico à comunidade internacional. Mas quem desrespeitou as resoluções sobre as Malvinas de modo brutal foi a Argentina, que deixou a diplomacia de lado, invadiu o arquipélago e provocou uma guerra, motivo mais que suficiente para que os britânicos endurecessem sua posição.

Cristina garante que o conflito com a Grã-Bretanha será resolvido no campo diplomático. É bom que assim seja. Mas desqualificar a opinião dos moradores das Malvinas não é certamente um sinal de disposição legítima para o diálogo.

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