As pedras de Pedreira

A crise que nos atordoa não nasceu hoje. Ao contrário, é resultado de décadas de desperdícios acumulados, que desconhecemos por esquecer nosso passado de nação e povo.

Flávio Tavares*, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2016 | 03h00

Por isso, Entre a lagoa e o mar, livro com que Fernando Pedreira narra a meninice e suas experiências de jornalista político, serve de bússola hoje, quando os escândalos nos ferem com descrença e pessimismo. Lúcido octogenário, Pedreira nos dá um livro com o frescor da juventude, em que o passado nos situa no presente. A linguagem é coloquial, como a boa conversa de um amigo inesperado que nos relate coisas desconhecidas, mas muito nossas.

Ali estão os labirintos que ele conheceu como comentarista político de O Estado de S. Paulo em Brasília, antes e após 1964. Ou como adido de imprensa na embaixada do Brasil em Washington, ou embaixador na Unesco em Paris, ou em andanças pelo mundo. Mais do que tudo, porém, é uma crônica de costumes do Rio e de São Paulo dos anos 1940 em diante, um relato terno e cru, em que não faltam sequer pormenores da rudeza do pai e da beatitude da mãe.

Lançado agora, o livro tem como prefácio uma carta de Fernando Henrique Cardoso (ao ler o esboço da obra), mas nem por isso se confunde ou se identifica com a gestão do ex-presidente. Ao contrário, há rigorosas críticas ao governo do velho companheiro, com quem priva de amizade profunda, nascida quando ambos pertenciam à Juventude Comunista.

Tal qual o jovem FHC e outros intelectuais ou jornalistas, Pedreira rompeu com o PCB em 1956, quando a União Soviética reprimiu ferozmente a rebelião popular contra o regime comunista na Hungria. Logo, o relatório de Kruschev sobre os crimes de Stalin na própria Rússia marcou a ruptura definitiva. E ele tornou-se rígido crítico dos PCs e da “religião laica” do marxismo.

O clandestino mas ativo Partido Comunista, porém, é um dos pêndulos do livro. O velho PCB desponta do passado, em dura crítica ou em aplauso, como na campanha pela exploração do petróleo.

Outro pêndulo perpassa o livro: o jornalismo e o jornal O Estado de S. Paulo, a partir de Júlio Mesquita Filho e de Francisco Mesquita. Ali aparece a decepção do “Velho Julinho” com a ditadura implantada a partir do movimento militar de março-abril de 1964, do qual ele fora o grande incentivador. “Anos depois, em 13 de dezembro de 1968, o Estadão seria cercado e invadido militarmente, a edição apreendida e a redação sob censura. Era o AI-5”, relata, acrescentando: “Fui ver o doutor Júlio e ele me disse apenas: ‘Se eu fosse dez anos mais moço, o senhor ia ver o que eu faria neste país’. Morreu meses depois de desgosto e tristeza, traído e humilhado por seus velhos companheiros. Acompanhou-o o irmão Francisco, unha e carne com ele na vida e na morte”.

A síntese sobre o “Velho Julinho” serve de alerta à falta de gente do seu porte nos tempos atuais: “Ele era ‘um intelectual europeu’ de antes da guerra, um oposicionista inato, um incurável Dom Quixote capaz de perder todas as batalhas e, apesar de tudo, vencer”.

Em 1964, Pedreira, como o jornal e quase toda a imprensa, apoiou a deposição de João Goulart. Mas a frustração do que veio depois o levou, no fundo, a este livro revelador: “É hora do canto do cisne. Em boa parte do percurso, minha sina foi trabalhar sob o peso e a tensão do arbítrio militar. Tinha quase sempre de subentender, aludir, insinuar. Havia temas explicitamente proibidos”.

Conta dos “momentos patéticos” em que “tudo que podíamos fazer nos jornais era escrever sobre o russo Soljenitzin, o Gulag soviético, as prisões (na Rússia) e os infelizes prisioneiros e seus algozes”. O livro traz relatos sombrios sobre o Brasil dos “anos de chumbo”, mas sempre austeros, sem tristezas. São os anos do “milagre” do ministro Delfim Netto, em que “dinheiro e corrupção corriam soltos”. Crítico acérrimo da resistência armada ao regime, Pedreira situa aqueles anos também como “uma grande festa pessoal”.

“O enfrentamento com a censura e o arbítrio, o esforço para ser ouvido e entendido, para influir no bom sentido até entre os militares e os facciosos, eram estimulantes”, diz e explica: “A dor e o medo são parte da vida. A barriga cheia e o entorpecimento moral em que tantos refocilam, sob o PT e Lula, não são bom exemplo de felicidade, mesmo para os de ambição mais curta”.

O livro é ainda uma nostálgica recriação de São Paulo “com sobretudo e gravata” e seus ônibus elétricos. O passado surge em episódios estonteantes, como o líder comunista Luís Carlos Prestes (recém-saído da prisão), na sacada da Embaixada dos EUA, no Rio, ao lado do embaixador Adolf Berle, no dia da morte de Roosevelt, em 1945.

Ou mostra a tradição brasileira do suborno. No governo do general Geisel, com Shigeaki Ueki na direção da Petrobrás, “a corrupção crescia e explodia entre os poros do regime”. Idem, pouco antes, na época do “milagre”. Ou depois, já em democracia, no “núcleo duro” do governo de FHC.

O mais contundente do livro, porém, é o relato da visita à Academia Militar de West Point, nos EUA, quando o comandante, coronel Lincoln, lhe explicou a “doutrina da contrainsurgência”, de tom “impiedosamente antidemocrático e primário”. Só aí Pedreira entendeu de onde vinham os Atos Institucionais. “Nas nebulosas cabeças de militares como Castelo, Golbery, Geisel ou Meira Matos, ganhou raízes e foi a Bíblia secreta do regime”.

Desses anos de neblina, conta ainda que, em Brasília da década de 1960, “nas casas de deputados e senadores nordestinos, as mulheres não se sentavam à mesa – serviam os homens, as visitas, mas comiam na cozinha”. E com certeira ironia conclui que Janete Clair foi nossa grande feminista!

Pode-se discordar de pontos do livro, como a recusa de chamar a ditadura de ditadura. Mas até nisso as pedras de Pedreira fazem entender por que, como ele diz, “o mundo fashion do século 21 é um mundo doentio elegantemente antinatural”.

*Flávio Tavares é jornalista e escritor, prêmio Jabuti de Literatura (anos 2000 e 2005)

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