As realidades do transporte

Os resultados da mais recente pesquisa sobre mobilidade urbana na Grande São Paulo, divulgados pela Secretaria de Transportes Metropolitanos, vêm confirmar aquilo que os habitantes da região já sabem, por sua difícil experiência diária, ou seja, que a precariedade do transporte coletivo leva todos que podem a optar pelo individual. Ao contrário do esperado e desejado, as viagens de carros e motos aumentaram mais do que as dos vários meios de transporte público, o que é uma clara advertência às autoridades, ao mesmo tempo sobre a necessidade de melhorar e expandir mais rapidamente esse serviço e sobre a inconveniência de demonizar o transporte individual, que continua a desempenhar um papel fundamental.

O Estado de S.Paulo

14 Março 2014 | 02h09

Entre 2007 e 2012, em comparação com o período de 2002 a 2007, o transporte individual cresceu 1% mais que o coletivo. No primeiro período, 45,7% das viagens foram por carros e motos e 54,3%, por transporte coletivo. No período anterior, elas foram, respectivamente, 44,7% e 55,3%. Outros dados confirmam essa tendência. Entre 2007 e 2012, o total de viagens na região metropolitana - nelas incluídas as feitas a pé e de bicicleta - foi de 43 milhões por dia. O transporte coletivo cresceu 16% (de 13,9 milhões para 16,1 milhões de viagens) e o individual, 21% (de 11,2 milhões para 13,6 milhões de viagens).

Embora o aumento da preferência pelo transporte individual não seja grande, é suficiente para mostrar que as pessoas que podem não hesitam em optar por ele, mesmo considerando os congestionamentos que, no caso dos carros, elas devem enfrentar. A opção pelas motos é ainda mais fácil, porque, podendo andar entre os carros, elas não enfrentam aquele inconveniente.

Outro aspecto da pesquisa a ser salientado é que a opção das pessoas por um ou outro meio de transporte nada tem a ver com seu nível de renda. Não corresponde à realidade a ideia de que pessoas de renda mais alta são levadas naturalmente a escolher o carro. Entre as que ganham até R$ 2.488 por mês, houve uma diminuição de 2% nos deslocamentos por transporte coletivo, enquanto entre as que têm renda mensal de R$ 4.976 a R$ 9.330 registrou-se um aumento de 1%. Entre as que ganham acima de R$ 9.330, o aumento foi muito maior - 6%. Há, portanto, uma inesperada tendência dos mais abastados de preferir metrô e trem, principalmente, e dos de baixa renda se inclinarem para os carros e motos.

O depoimento ao Estado de uma frentista que comprou seu primeiro carro há um ano e meio dá uma boa ideia do que leva esses últimos a se comportar assim. "Antes, só andava de transporte público. Andava não, sofria", diz ela, que divide o carro com o marido. Acrescenta que o que mais a incomoda no ônibus é ter de esperar até uma hora por ele no ponto. O custo mais elevado não a incomoda: "É caro, mas não tem como ficar sem. Tudo parece mais fácil e rápido". As facilidades criadas pelo governo para a compra de carros e motos só acentuaram essa tendência.

Disso tudo ficam duas grandes lições. A primeira é a confirmação de que é pura demagogia demonizar o transporte individual por carro, principalmente - como vem fazendo o atual governo municipal da capital - porque, além de ser responsável por um terço dos deslocamentos diários, ele está crescendo. A segunda é que, como qualquer observador minimamente informado e sensato pode constatar, só a melhoria do transporte coletivo - em especial conforto e rapidez - é capaz de atrair quem usa carro e inverter aquela tendência.

Como a expansão do sistema metroferroviário - não custa repetir - será lenta, mesmo com investimentos ainda maiores dos que os que estão sendo feitos, a solução a curto prazo é a melhoria do serviço de ônibus da capital. Mas ela não será obtida com as medidas improvisadas, de olho na eleição, que a Prefeitura vem tomando, como a multiplicação de faixas exclusivas subaproveitadas e uma tímida reorganização das linhas de ônibus, que até agora parece atender mais aos interesses das empresas do setor do que aos dos passageiros. Nesses termos, sua defesa da prioridade ao transporte coletivo não passa de oportunismo eleitoral.

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