As universidades e a cooperação internacional

Desde a criação das Faculdades de Direito em 1827 em Olinda e em São Paulo, instituições de ensino superior no País têm tido como principal objetivo formar profissionais em todas as áreas, além de administradores públicos. Mesmo nas áreas técnicas, as escolas criadas ao fim do século 19 e início do século 20 se limitaram basicamente ao ensino, uma vez que a maioria dos produtos industrializados era importada dos Estados Unidos e da Europa.

José Goldemberg, O Estado de S. Paulo

20 Julho 2015 | 03h00

A partir da revolução de 1930 a situação mudou, com maior ênfase na industrialização, principalmente em São Paulo, onde teve grande impulso.

A Escola Politécnica e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) supriram a base técnica e os profissionais necessários para essa expansão, mas foi com a criação da Universidade de São Paulo (USP) que pesquisa e inovação tecnológica passaram a ocorrer em maior escala, quando foram contratados, na Europa, professores que trouxeram para o Brasil a própria ideia da importância da pesquisa em todas as áreas. Até então, ela era limitada a algumas áreas mais ligadas à agricultura e à saúde, para as quais haviam sido criados institutos especializados como o Instituto Agronômico de Campinas, o Instituto Butantan, o Instituto Biológico Adolfo Lutz e outros.

A pesquisa é fundamental não só para originar ideias novas, como também para permitir a escolha das melhores tecnologias existentes nos países mais avançados e adaptá-las, quando necessário, à realidade local.

Conhecimentos científicos são universais e deles podem emanar tecnologias com características nacionais. Ninguém precisa reinventar os motores que surgiram no século 19, o que é necessário é aprender a fabricá-los e a aperfeiçoá-los, se for o caso.

Daí a importância da cooperação internacional para obter informações, familiarizar-se com novas tecnologias e, se possível, contribuir com ideias novas para torná-las melhores. É assim que se originam produtos mais competitivos e, frequentemente, novas indústrias.

Todos os outros caminhos que foram tentados por países que se fecharam às ideias correntes no mundo fracassaram. Nos anos iniciais da União Soviética, a partir de 1917, com a implantação do regime soviético, alguns dos revolucionários argumentaram que era preciso desenvolver uma ciência e tecnologia para o povo e que nas universidades do império czarista da Rússia só ingressavam os filhos dos aristocratas voltados para os interesses desta classe social. Mudanças foram feitas para colocar nas universidades filhos dos trabalhadores, que seriam mais sensíveis às necessidades do povo. O resultado não demorou: as universidades deixaram de produzir a tecnologia e a mão de obra de alto nível de que a construção da nova sociedade necessitava. Em pouco tempo essas ideias retrógradas foram abandonadas e as universidades soviéticas voltaram a ter um nível elevado. A liderança que a Rússia alcançou na pesquisa espacial, com o lançamento do primeiro satélite artificial tripulado, demonstra bem isso.

A presença de professores e de pesquisadores estrangeiros na USP nos primeiros anos após sua criação, em 1934, foi-se reduzindo gradativamente nas décadas seguintes, à medida que professores nacionais substituíram os estrangeiros. Algumas unidades da universidade mantiveram, contudo, a salutar política de ter sempre visitantes estrangeiros, o que explica em parte seu bom desempenho.

Muitos convênios com universidades de outros países foram assinados ao longo dos anos pelos reitores das universidades públicas do Estado de São Paulo. O que a experiência mostrou, porém, é que não é a assinatura de convênios em solenidades que conta, mas sua efetivação por meio do contato efetivo de pesquisadores dos países envolvidos: é a realização de pesquisas conjuntas que impulsiona a pesquisa.

Isso é o que tem acontecido nos últimos anos, em que as universidades do Estado têm dado importância crescente a essas atividades, que foram, literalmente, redescobertas. Todas elas têm ativos departamentos de cooperação internacional. Além disso, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), só nos últimos oito anos, sob a presidência do professor Celso Lafer, assinou cerca de 100 acordos de cooperação internacional, que deram origem a 800 projetos de pesquisa, executados dentro das universidades paulistas.

Além desses benefícios que a cooperação internacional traz - chamada às vezes de “internacionalização” da atividade universitária -, existe outro, que é estabelecer padrões de comparação para os trabalhos dos pesquisadores brasileiros, evitando o paroquialismo, que era generalizado no passado.

Num mundo cada vez mais globalizado, em que a tecnologia da informação nos liga instantaneamente ao que ocorre no resto do mundo, não é produtivo pensar apenas em termos locais nem é produtivo restringir nossos interesses apenas ao que ocorre nos países próximos.

Mais ainda, pela sua própria extensão territorial e pelo que ocorre na Floresta Amazônica, o Brasil tem papel significante nas discussões mundiais sobre preservação ambiental e as mudanças climáticas. O que isso significa é que os rumos do nosso desenvolvimento afetam outros países e reciprocamente são afetados por eles.

É indispensável, portanto, entender como Estados Unidos, China, Índia e Rússia, entre outros, enfrentam estes problemas não somente nos aspectos técnicos, mas também nos seus aspectos jurídicos e geopolíticos.

A cooperação internacional nos ajuda a fazê-lo, além de ser uma das formas de melhorar o nível das nossas universidades, como fizeram os fundadores da Universidade de São Paulo em 1934.

José Goldemberg foi reitor da USP e ministro da Educação

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