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As utopias e a barbárie

Neste momento em que o mundo se sente ameaçado por guerra, após a detonação de uma bomba nuclear pela Coreia do Norte, é interessante ver em que temas está focada a comunicação em toda parte. Não surpreende que surjam muitos textos e noticiários de televisão sobre utopias – aliás, este jornal publicou no dia 11 último que esse tema foi selecionado para o teste de redação de candidatos a uma vaga na Universidade de São Paulo. E os vestibulandos em geral consideraram, muito difícil a prova – “As utopias são indispensáveis, inúteis ou nocivas?”.

Washington Novaes

15 Janeiro 2016 | 03h04

Não é a primeira vez. Quem estava vivo em 1962, por exemplo – como o autor destas linhas, que já era jornalista –, viveu duas semanas quase em pânico com o noticiário da ameaça iminente de guerra nuclear entre os Estados Unidos e a então União Soviética. Dia a dia se acompanhava o trajeto de navios soviéticos que transportavam mísseis para Cuba, no que era considerado uma resposta à malograda tentativa de invasão da ilha pelos Estados Unidos. Até que, já próximos à chegada, com os norte-americanos assegurando que o equipamento atômico não seria desembarcado e os soviéticos garantindo que seria, a qualquer preço, os presidentes norte-americano, John Kennedy, e o soviético, Nikita Kruschev, tiveram o que se considerou uma “iluminação” e acertaram um desfecho pacífico: os soviéticos desistiam de desembarcar os mísseis e os Estados Unidos se comprometiam a respeitar a autonomia de Cuba.

Hoje a ameaça de confronto nuclear parece estar de volta. Com a agravante de que a Coreia do Norte tem capacidade para atingir com mísseis nucleares pelo menos a parte oeste dos Estados Unidos (Estado, 8/1) ou qualquer parte da Ásia. Se isso acontecer, dizem os analistas, os Estados Unidos replicarão com um ataque ao território norte-coreano iniciado por um submarino com 24 mísseis, cada um levando de oito a dez cargas nucleares de 100 quilotons – mais de cinco vezes a potência que arrasou Hiroshima. Depois, só Deus sabe... Até porque a Coreia do Norte tem 1,2 milhão de militares e o equivalente a 40% de seu produto bruto é gasto com as Forças Armadas.

Sanções do Conselho de Segurança da ONU parecem pouco eficazes, como as que esse órgão já votou para a própria Coreia do Norte em 2006. Desde então, esse país já fez quatro testes nucleares – em 2006, 2009, 213 e 2016. “Urge uma resposta internacional rápida e contundente a essa irresponsabilidade” (a detonação da última bomba), sentenciou em editorial este jornal (8/11, A3).

Sempre que surge o problema nuclear e se condena o país ameaçador, este – “subdesenvolvido” ou “desenvolvido” – invoca o argumento de que é injusto só seis nações deterem o “oligopólio atômico”: Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte (embora haja quem inclua outras nações). Em artigo neste jornal (11/1), o escritor peruano Mario Vargas Llosa, por exemplo, afirma que “um décimo do arsenal nuclear acumulado no mundo é suficiente para acabar com todas as cidades do globo” e fazer desaparecer a espécie humana. A seu ver, é preciso “dar um ultimato” à Coreia do Norte para se desfazer de sua parte no arsenal. “E efetivar a ameaça se não for ouvida”, sob pena de “começar a destruí-la”.

Por enquanto, a Coreia do Sul anuncia que retomará sua propaganda na fronteira com o Norte e este considera essa resposta um “ato de guerra” (8/1): “Quanto maiores os esforços para isolar e prejudicar a Coreia do Norte, maior será nossa dissuasão nuclear”. Ou seja, guerra atômica. O secretário de Estado norte-americano John Kerry, afirmou (FP, 9/1) já haver deixado claro aos chineses que “não podemos continuar como está”. Com essa visão, os EUA estão pressionando por uma mudança de atitude da China, que reitera estar-se dedicando ao objetivo de desnuclearizar a Península Coreana e manter a paz e a estabilidade na região.

Teremos de chegar ainda mais perto do confronto nuclear? Não haverá nenhum lugar para a indispensável utopia?

Parece inacreditável que numa hora como esta o Irã acuse a Arábia Saudita por ataques aéreos à sua embaixada no Iêmen. Ambos os países são islâmicos, “mas estão há séculos irredutivelmente separados porque cada um tem a sua opinião sobre como adorar Maomé”, como diz o analista internacional Vitor Gomes Pinto (O Popular, 9/1). E o confronto militar ainda “é algo impensável”, não se pode continuar “colocando mais lenha na fogueira”.

Mas as ameaças não estão somente lá. No sul da África prosseguem confrontos entre etnias originárias dali e deslocadas pelos países europeus durante o processo de colonização. Agora, com a retirada dos colonizadores, travam-se guerras entre essas próprias etnias, cada uma querendo retornar a seus territórios de origem, hoje, porém, ocupados por outras etnias, que defendem a posse de recursos hídricos e dos poucos insumos deixados pelos europeus. Milhões de pessoas já morreram nessas guerras, quase não noticiadas.

No Sudeste Asiático as ameaças de confrontos entre alguns vizinhos são igualmente frequentes. No Oriente Médio, vários países continuam a se armar. O clima ferve na Europa com a questão das invasões de refugiados. Na Síria, 500 mil pessoas já morreram. Não chegou a merecer maior destaque a notícia de um jihadista sírio de 20 anos que executou em público a própria mãe, depois de ela tentar convencê-lo a abandonar o grupo Estado Islâmico (EFE, 9/1). No Egito, mais um foguete matou quatro pessoas e destruiu instalações da ONG humanitária Médicos Sem Fronteiras – o terceiro atentado a ela.

Nem é preciso entrar por outras barbaridades ou excentricidades. Na hora em que um homem vestido de Papai Noel rouba um helicóptero em São Paulo e o leva para o Paraguai, antes de ser preso (Estado, 9/1), tudo é possível. Até mesmo a notícia de que três cemitérios públicos paulistas vão ter covas abertas por miniescavadeiras , em lugar de pás manuais.

*WASHINGTON NOVAES É JORNALISTA - e-mail: wlrnovaes@uol.com.br

 

 

 

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