Assange e a baleia branca

"Queequeg me deu a entender que em seu país, por causa da falta de sofás e cadeiras de todos os tipos, o rei, os chefes e as pessoas importantes tinham o costume de engordar alguns cidadãos subalternos para lhes servirem de assento; e para mobiliar uma casa com conforto bastava comprar oito ou dez sujeitos preguiçosos e instalá-los nos pilares e alcovas. Além do mais, era muito conveniente nas excursões; muito melhor do que cadeiras de jardim dobráveis que se transformam em bengalas; no momento oportuno, o chefe chamava o assistente, pedindo-lhe que se tornasse um assento embaixo de uma árvore frondosa, não raro em lugares pantanosos e úmidos".

Eliana Cardoso,

12 Setembro 2012 | 03h10

O relato nos chega através de Ishmael, narrador de Moby Dick, obra-prima de Herman Melville. Ishmael e o canibal Queequeg tornam-se amigos - talvez amantes, no mundo ambíguo da literatura e do erotismo proibido na Nova Inglaterra do século 19 - e embarcam como tripulantes no Pequod, baleeiro capitaneado por Ahab.

O capitão, com meia perna perdida para o maxilar inferior da baleia branca, obcecado pelo desejo irredutível de vingança, transformaria a viagem do Pequod em competição fatal entre o homem e o cachalote indecifrável. Eram ambos, homem e fera, dotados de fúria tenebrosa. Ahab, ao mesmo tempo ditador e vítima do destino, combinava nobreza e malícia. Quase sempre soava autoritário e egoísta. Mas seu determinado enfrentamento do monstro ainda inspira ressentidos, que compartilham o mesmo desejo de destruir poderes arbitrários.

Julian Assange não é Ahab. Mas também persegue sua baleia branca. Não capitaneia o Pequod, aquele microcosmo de outros tempos. Mas, determinado a divulgar documentos secretos com ajuda de amigos e da informática, chefia o WikiLeaks, referência quase diária na mídia mundial. Foco de crise diplomática e política, desde que, na sacada da Embaixada do Equador em Londres, acusou os EUA de caça às bruxas, Assange divide opiniões. Para muitos, ele se transformou no símbolo da luta pela liberdade civil. Para políticos como Hillary Clinton e conservadores empedernidos como Vargas Llosa, virou o inimigo da comunidade internacional.

Com a foto estampada por todo lado, Julian Assange não conseguiria competir com uma figura maior do que a vida como aquela de Ahab, que a voz de Melville alimenta na imaginação do leitor. Ao contrário, os adjetivos com que a imprensa pinta Assange vão de desgracioso ladrãozinho da intimidade alheia, na descrição de Vargas Llosa, a rei do narcisismo e praga sexual, em alguns jornais ingleses.

Entretanto, em oposição ao que dizem os detratores de Assange - quando atribuem o pedido de asilo ao Equador à mania persecutória de quem acredita ocupar o centro do mundo -, o acuado tem razões de sobra para temer que a extradição para a Suécia represente via expressa para os EUA, onde, se condenado por espionagem, poderia receber a pena de morte.

A Inglaterra não tem o mesmo acordo que a Suécia e o Panamá têm com os EUA. Esse acordo permite a "entrega temporária" de um estrangeiro suspeito de crime às autoridades americanas. Um telegrama da Embaixada dos EUA no Panamá enviado em 2008 e que vazou para o mundo, por cortesia do WikiLeaks, explica a vantagem do acordo: ele permite "emprestar" um suspeito para ação judicial nos EUA com mais rapidez do que a extradição legal (como no caso de suspeitos de tráfico de drogas levados ao Panamá e de lá entregues às autoridades americanas).

Ao contrário da afirmação de Vargas Llosa de que Assange "nem sequer é objeto de investigação nos EUA", o tribunal de Virgínia prepara um caso contra ele e diplomatas australianos relatam que o WikiLeaks é alvo de devassa sem precedentes. Dianne Feinstein, chefe da Comissão de Informação do Senado americano, disse que Assange "causou problemas para a segurança e deve ser indiciado".

Para medir a dimensão dos acontecimentos recentes vale a pena voltar atrás no tempo. Há dois anos o WikiLeaks divulgou mensagens diplomáticas e relatórios militares contendo evidência sobre crimes de guerra, coalizão americana com esquadrões da morte no Iraque e investigação ilegal de membros das Nações Unidas. Em consequência, nos últimos quatro anos, usando a Lei de Espionagem de 1917, o governo americano processou seis pessoas por revelarem informação classificada, inclusive Bradley Manning, informante do WikiLeaks, preso por ajudar o inimigo.

Em 1848, quando Melville se sentou para escrever Moby Dick, Marx e Engels previam o significado da literatura no mundo globalizado, profetizando que as criações de nações individuais se tornariam propriedade comum e, por extensão, as culturas nacionais se tornariam mais padronizadas. Pelo menos nisso os dois comunistas tinham alguma razão. Hoje em dia, apesar das exceções, boa parte do mundo lê as mesmas notícias, que repercutem as divulgações do WikiLeaks, cujos documentos incentivaram o exame do exercício do poder e forneceram combustível às revoltas da primavera árabe. Difícil acreditar que essa organização transforme o mundo, mas ela pode alterar a discussão e o fez ao ajudar o entendimento da invasão do Iraque como um erro terrível.

Diz Ishmael, em Moby Dick: "Acredito que muito do caráter do homem se encontra assinalado em sua coluna vertebral. (...) Uma espinha de viga fraca jamais sustentou uma alma nobre. Regozijo-me de minha coluna, haste firme e audaciosa da bandeira que estendo ao mundo". Assange gostaria de poder dizer o mesmo. Não pode. Suas fraquezas se encontram expostas. Nem por isso deixaremos de separar seus erros de seus serviços na luta por mais transparência como fundador do WikiLeaks. Vale a tentativa de impedir - quem sabe - que poderosos se sirvam de subalternos como assento.

* PH.D. PELO MIT,  É PROFESSORA TITULAR DA FGV-SÃO PAULO

SITE: WWW.ELIANACARDOSO.COM

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