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Até que enfim

O Estado de S.Paulo

24 Junho 2014 | 02h 06

A manifestação do Movimento Passe Livre (MPL), realizada quinta-feira na capital paulista - para lembrar os protestos de junho do ano passado, que se espalharam pelo País e culminaram na revogação de aumentos de tarifa dos transportes coletivos -, resume os problemas que desde então enfrentam as principais cidades sempre que situações como essas se repetem.

De um lado, as manifestações degeneram quase invariavelmente em violência, pela ação dos mascarados do Black Bloc, com destruição de patrimônio público e privado, e de outro, a polícia ainda se mostra hesitante quanto à maneira de reprimir o vandalismo e proteger a população, cada vez mais à mercê da irresponsabilidade de grupos que se julgam no direito de parar as cidades a qualquer pretexto. Preocupados em não parecer politicamente incorretos - depois de críticas a possíveis excessos nas primeiras manifestações -, os governantes ficaram cheios de dedos no trato da questão, permitindo na prática que os desordeiros e criminosos que se apoderaram dos protestos tomassem conta das ruas.

Essa situação atingiu um ponto intolerável na quinta-feira, quando a Polícia Militar (PM) fez um inacreditável acordo com o MPL. Como havia sido avisada antecipadamente pelo MPL, por meio de ofício, de que o ato seria pacífico, ela decidiu não fazer policiamento ostensivo nas vias a serem percorridas pelos manifestantes. Aconteceu o que era previsível. Tudo correu bem da Praça do Ciclista, na Avenida Paulista, de onde os manifestantes partiram, até as proximidades do cruzamento da Avenida Rebouças com a Rua Oscar Freire, quando os mascarados do Black Bloc entraram em ação.

Dali até a Marginal do Pinheiros a história foi outra. Assistiu-se à repetição das cenas de ódio e destruição que vêm marcando as manifestações, desde que dela desertaram os que saíam às ruas apenas para expressar pacificamente seu descontentamento. Cinco agências bancárias e uma concessionária de veículos foram depredadas, lixeiras destruídas e sacos de lixo incendiados nas ruas para obstruir o trânsito. Só quando o mal já estava feito é que a PM finalmente interveio para evitar que a destruição fosse ainda maior.

Alheios a esses atos de vandalismo - como se eles não contassem porque praticados pelo Black Bloc e não por eles -, os manifestantes do MPL repetiram o bordão do ano passado: "Que coincidência - não tem polícia, não tem violência". Ou seja, para eles aquela destruição não é violência. Violência é a ação policial destinada a evitar... a violência, a restabelecer a ordem pública e a proteger a população.

A pergunta inescapável é: então a PM não sabia - como bem lembrou José Vicente da Silva, especialista em segurança pública - que, considerando as depredações em protestos anteriores, era previsível que pudessem ocorrer novamente? Daí a reação do secretário de Segurança, Fernando Grella Vieira, que condenou o acordo e a demora em intervir, consequência inevitável dele: "É inadmissível um acordo como o que foi feito. O acordo possível é para manter a ordem pública e é inaceitável a inércia".

A coisa foi tão longe que dessa vez as autoridades parecem ter acordado. Prova disso, além da condenação do esdrúxulo acordo, é a afirmação de Grella Vieira de que, "quando o MPL convoca uma manifestação e sabe que não terá controle sobre os black blocs, é tão responsável quanto esse grupo de baderneiros e vândalos". Jogar a culpa no Black Bloc e continuar, por debaixo do pano, a acobertar sua violência é algo que não pode mais ser tolerado.

Outro sinal claro de que as coisas podem estar mudando é a nítida separação feita pelo governador Geraldo Alckmin entre manifestações pacíficas e vandalismo, a ser combatido pela polícia por se tratar de um crime. Demorou-se a constatar o óbvio, mas que pelo menos seja para valer agora. Outra promessa importante de Alckmin é promover - finalmente - a punição dos black blocs que forem identificados por câmeras de segurança. Tudo isso fará parte de nova estratégia para enfrentar o problema, a ser anunciada em breve.

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