Atitude irresponsável

O prefeito Fernando Haddad é mesmo incorrigível. Enquanto insiste em suas desastrosas decisões administrativas – habilmente mascaradas por apurado senso demagógico e de marketing, porque essas características negativas não lhe faltam –, pelas quais os paulistanos já começaram e continuarão por um bom tempo a pagar caro, ele agora resolveu atacar também no campo político. E para isso se valeu da Virada Cultural para tentar tirar proveito da delicada situação política do País, em jogada de notável irresponsabilidade.

O Estado de S. Paulo

29 Maio 2016 | 03h00

Durante eventos da Virada, mensagens como “Fora Temer” e “Vai ter luta” foram veiculadas em painéis eletrônicos montados pela Prefeitura em vários pontos da cidade. A bancada do PMDB na Câmara Municipal reagiu imediatamente e enviou representação ao procurador-geral de Justiça de São Paulo, Gianpaolo Smanio, pedindo a abertura de investigação sobre o uso da máquina administrativa para incitar a população contra o presidente interino da República.

Sustentam os vereadores Nelo Rodolfo, Ricardo Nunes e George Hato que o governo Haddad permitiu que aquelas mensagens, com “luzes intermitentes e variação de cores”, fossem transmitidas ao público que acompanhava os shows nos palcos montados nas Avenidas Rio Branco e São João e nas Praças da República e Júlio Prestes. Segundo eles, não procede a alegação de que a responsabilidade pelas mensagens é dos artistas, porque estavam ali “sob o patrocínio do dinheiro público, que não tem cor partidária, credo religioso ou convicções ideológicas”.

Estão cobertos de razão. O mesmo se pode dizer de Nelo Rodolfo, quando afirma que esse foi um “ato irresponsável da Prefeitura”, e que um evento tradicional de cidade, como a Virada Cultural, “não pode ser misturado com política partidária”. A investigação se impõe, portanto, para que os fatos sejam devidamente esclarecidos e os culpados, punidos.

Como reagiu o prefeito Haddad? Como alguém com um resquício de pudor que, pego em flagrante delito, se desculpa? Nem pensar. Num claro e forte indício – que uma investigação pode elevar a prova cabal – de que nisso tem o seu dedo, o prefeito inventou uma explicação mirabolante, típica de quem tem mesmo culpa no cartório. Diz ele que o PMDB está apenas propondo “uma instância de censura”. E que isso é “mais um factoide político, querer fazer graça, aparecer. Não faz sentido”. 

O prefeito inverte os papéis. Quem está querendo fazer graça, e com coisa séria, é ele. Basta ver a explicação que inventou para confundir a opinião pública e fugir de suas responsabilidades nesse episódio. Diz ele que, como chefe do Executivo, não pode censurar artistas, pois são eles os responsáveis pelas mensagens transmitidas nos shows: “O que ele vai cantar, o que vai dizer no palco, como a plateia vai reagir não passa pela censura”.

É verdade, só que ele não está sendo acusado disso. Não estão em questão as opiniões expressas pelos artistas, mas as mensagens transmitidas pelos painéis eletrônicos. E com essas ele tem, sim, tudo a ver. Como prefeito, ele é responsável pelo que faz a sua administração. E não pode alegar que essa é uma questão distante, por duas razões. A primeira é que as mensagens dizem respeito a questões políticas que envolvem o País, presentes no dia a dia de todos.

A segunda, que reforça a primeira, é que recentemente Haddad proibiu a Fiesp de projetar em seu edifício-sede, na Avenida Paulista, mensagens a favor do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, invocando a lei Cidade Limpa. Se estava perfeitamente a par desse tipo de mensagem naquele caso, por que não no caso do presidente interino Michel Temer? Por que num caso é censura e no outro não?

O que torna esse episódio ainda mais grave, e maior a irresponsabilidade de Haddad, é que ele resolveu se comportar com tamanha leviandade, incitando a população contra o presidente da República, em meio a uma das mais graves crises já vividas pelo País. E, pior, produzida pelo partido ao qual pertence.

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