Atraso nas reformas afeta a dívida pública

O maior inimigo da administração da dívida mobiliária é o tamanho do endividamento total da União – que em apenas três anos avançou de 52% para mais de 74% do PIB

O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2017 | 03h17

O coordenador-geral de Operações da Dívida Pública da Secretaria do Tesouro Nacional, Leandro Secunho, admitiu que outubro foi um mês mais “desafiador” para a administração da dívida mobiliária da União. Houve, por dois motivos, mais resgates do que vendas de novos papéis: a indefinição do cenário externo, ou seja, da política econômica nos Estados Unidos, onde se espera uma elevação do juro básico ainda este ano; e o atraso na reforma da Previdência, que é peça essencial no processo de ajuste das contas públicas.

Para não pressionar o mercado, o Tesouro resgatou R$ 89,9 bilhões, mas colocou apenas R$ 66,6 bilhões em novos papéis, dos quais R$ 9,5 bilhões em títulos corrigidos pelo dólar e pelo euro.

O estoque da dívida só ficou estável em R$ 3,43 trilhões por causa da apropriação positiva de juros no montante de R$ 25,6 bilhões. No relatório sobre a dívida distribuído há alguns dias, o Tesouro destacou a troca de dívida externa onerosa por um novo título (Global 2028), que paga juros menores, tem mais liquidez e serve como referência para emissões privadas.

O resgate de títulos em reais ocorreu inclusive no Tesouro Direto, segmento que concentra aplicações de pequenos investidores. É sinal de que mais aplicadores já não dão preferência aos papéis oficiais, apesar de a remuneração oferecida ser competitiva em relação à dos títulos privados.

Entre setembro e outubro, as instituições financeiras e as seguradoras foram os investidores que mais venderam papéis, reduzindo suas posições, respectivamente, de R$ 35 bilhões e R$ 20 bilhões, enquanto fundos de investimento elevaram seu peso relativo. Um bom sinal é o de que os estrangeiros aumentaram ligeiramente sua participação, mas sem compensar o que haviam vendido em meses anteriores. A participação dos estrangeiros, que foi de 14,33% em dezembro de 2016, chegou a 12,78% em outubro.

O maior inimigo da administração da dívida mobiliária é o tamanho do endividamento total da União – que em apenas três anos avançou de 52% para mais de 74% do PIB. A perspectiva é de se aproximar dos 83% do PIB até 2021, se a taxa real de juros continuar moderada (3% ao ano), calculam os economistas do Bradesco. A dívida pública, em síntese, é alta. E só com reformas fiscais profundas, a começar da previdenciária, sua administração se tornará menos desafiadora.

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